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PROFISSÃO JORNALISTA
TRANSPORTES OS VELHINHOS DA ESTRADA Publicado na Revista Eu Rodo
Os versos da música do rei do baião, Luiz Gonzaga, pulsa nas veias de cada caminhoneiro e conta histórias que se repetem a cada curva, a cada reta das maltratadas estradas do Brasil. Nossa viagem começa aqui nesta edição e promete chegar ao final de 98 com muitos relatos sinceros e verdadeiros. Não é história de pescador, apesar de muitos dizerem que caminhoneiro e pescador são muito iguais: porque gostam de uma mentira. Talvez por isso mesmo, é que muitos caminhoneiros já ganharam concurso de pescador, ou melhor: de mentiroso. E todo caminhoneiro é um pescador de emoção e aventura. Os senhores José Mendes e Sebastião Merlo são gaúchos como a maioria destes profissionais, mas são catarinenses por moradia e cidadãos do Brasil por milhares de quilômetros. Sim, vamos chamá-los de senhores, isto porque já passaram dos 30 anos de boléia e porque já são avós e bastante avançados na idade. Já deveriam estar aposentados, mas como disse o Sr. Merlo: " fiquei uns seis meses em casa com a patroa. Tinha decidido gozar minha velhice e aposentadoria. Mas comecei a ter problemas de saúde, a ficar constantemente gripado. Logo eu que nunca tive um resfriado. Fui ao médico, que me disse que eu não tinha nada, que minha saúde era de ferro. Mas a cada dia ficava mais doente. Até que minha esposa me disse: Acho que sei o que você tem. Vê se arruma um frete! Foi o que fiz. Consegui com um amigo uma viagem para o Rio de Janeiro, com uma carga de maçã de Fraiburgo - SC. Já nos primeiros quilômetros melhorei. Parece que nunca tinha estado doente. Toda aquela ruindade sumiu de repente. " Isso foi há dois anos atrás e o Sr. Merlo garante que, mesmo com 61 anos de idade, pretende continuar no volante de um "bruto", por pelo menos mais 5 anos. Depois ele volta para Curitibanos - SC, torcendo para terminar seus dias sem nenhum resfriado. Seu companheiro, Sr. José Mendes, mais jovem, com 55 anos, mas com 37 de boléia, no entanto, não pensa em parar. " Vou morrer no volante de um caminhão. Mas isso vai demorar muito ainda. Tenho uma excelente saúde e nesses anos todos de profissão jamais tive um acidente de trânsito. Sou extremamente cuidadoso e não será por um descuido que irei visitar São Pedro tão cedo. Acho que vou morrer de velho mesmo. Enquanto minha vista estiver boa vou estar atrás de um volante. José Mendes é de Lagoa Vermelha - RS, enquanto o Sr. Merlo nasceu em Passo Fundo - RS. Mas a amizade entre os dois nasceu mesmo foi em Curitibanos. " O Sebastião é mais que um amigo para mim, ele é um irmão." Os dois trabalham na mesma transportadora de Curitibanos. Cada um em seu "bruto", eles viajam juntos. E foi na mesma mesa, que os encontramos no restaurante do Posto Cupin, em Paranaguá. Enquanto esperavam para carregar adubo no Porto, eles contaram sobre suas vidas e aventuras. Mais falador, o Sr. José contou do orgulho que tem da profissão. " Não tem canto deste país que eu não passei. Da fronteira com o Uruguai até Manaus. Meu caminhão já enfrentou todo tipo de estrada e de balsa. No momento, tenho feito muito frete para o Mato Grosso. Levo adubo e trago soja, milho, açúcar." Isso faz com que os dois passem muitas vezes 45 dias longe de casa. Mas o que não impediu o Sr. José de ter 6 filhos, o mais velho já com 34 anos de idade. " Sabe como é, a saudade aumenta o amor e a vontade. O resultado é isso aí mesmo. Mas eu sou muito feliz. Todos têm muita saúde na família." Mesmo com tanta "vontade" como diz o Sr. José, ele sempre pensou nos compromissos que tinha em casa e namorada de estrada foi uma coisa que ele não teve. Já para o Sr. Sebastião, desviar dos braços das mulheres das estradas, principalmente na mocidade foi muito difícil. Jura que nunca traiu a esposa, mas é capaz de comentar sobre as diferenças entre as mulheres das diversas regiões do país. " Lá para o Nordeste eu achei que as mulheres são muito atiradas. No tempo que eu comecei a viajar para lá, em 1958, 60, ainda tinha muita estrada de chão. Lá era incrível ! Lá, menina de 10 anos já estava na vida. O turismo sexual que tem sido muito comentado hoje em dia, já vem de muito tempo. As nordestinas são muito assanhadas. Mas as sulistas continuam sendo mais bonitas." O Sr. José balança a cabeça e afirma: " A vida é isso aí. A gente sofre hoje, amanhã está gozando a vida. É isso aí !". O Sr. Sebastião completa dizendo que as vezes uma doença pega o caminhoneiro pelo caminho. " Uma vez em Cuiabá, com um calor de 42 graus, fui parar no Pronto Socorro. Fiquei lá um dia e uma noite porque me deu um cólica de rim. Assim devereda! Eu nunca tinha sentido nada. Deram uns comprimidos para dor. Sai de lá e voltei para casa numa disga miserável. Acabei sarando com uns remédios de mato. Tomei chá de folha de abacate e pus fora umas 20 pedras dos rins. Depois disso nunca tive mais nada. Mas passei a me cuidar com a alimentação". Quando o assunto é o "bruto", a conversa toma outros rumos. O Sr. José conta que começou a dirigir num Chevrolet 1946, 48 depois passou para os F8, FNM e em 1966 começou a dirigir o Scania. Mudaram-se os modelos e os anos de fabricação, mas ele permaneceu na mesma marca. Não gosta de fazer comparações entre as fábricas, " o caminhoneiro é um sujeito muito mentiroso, as vezes tem o mesmo caminhão, modelo, ano de fabricação do que o colega, mas jura e tenta provar que o caminhão dele é o melhor das estradas. Por isso não me pergunte qual é o melhor". Mas se trai quando diz que o seu sonho é "pilotar" um Volvo FH. " Ah! Por um vermelhão destes eu troco de marca agora mesmo. Saio daqui já no volante de um FH." O Sr. Merlo, por sua vez já dirigiu caminhão de todas as marcas. Sua última experiência com um Volvo foi com um EDC 360. Não poupa elogios, mas faz suas considerações. " Não sei se foi aquele caminhão que eu trabalhei, mas a caixa de câmbio é muito dura. E outra coisa é a cabina muito estreita. Já que aumentaram ela para cima, porque não deram uma espichada pros lados ? Mas fora isso ele é um supercaminhão, parece um automóvel de luxo importado. Não tem concorrentes." Ambos são unânimes em afirmar que o Código veio prá valer e para melhorar o trânsito. "Não era possível nós continuarmos nessa guerra. Era muito desrespeito e também muita falta de fiscalização." O Sr. José sugere apenas que o limite de velocidade para os caminhões deva se equiparar ao dos ônibus, ou seja 90 Km/h. E ele fala com seriedade e a credibilidade de um especialista: " Nesses anos todos nunca tive um acidente, nunca atropelei ninguém, nem cachorro e bichos nas estradas. Mas a tecnologia dos caminhões evoluiu muito. É verdade que tem muito caminhão velho trabalhando por aí. Mas a melhor velocidade para tudo é entre 85 e 90 km/h. É nesta faixa que há menor consumo de combustível. Se você andar muito abaixo dos 80, o consumo aumenta, os pneus e o motor se desgastam mais rápido. Se você anda acima dos 90, o motor ao trabalhar em alta rotação também vai consumir mais. O desgaste das rodas, pneus e freios também vai aumentar. Por isso é que eu ando sempre nesta faixa de 85 a 90. E tem mais ainda, é uma velocidade ideal para a saúde. Devagar demais você se aborrece e se irrita com mais facilidade com os outros que passam te xingando. Se anda correndo muito, você precisa ter mais atenção, você se esgota mais fácil. Você fica mais cansado e motorista cansado ou irritado é o caminho mais curto para o fim da vida. Se me pedissem um conselho eu diria: ande a 85, 90 km/h! Você não vai morrer, não vai matar ninguém, não vai dar prejuízo para o patrão e nem para a assistência social. E o país vai ser melhor. Sem mortos e sem prejuízos. E o Sr. Merlo completa: "uma coisa boa que fizeram neste Código foi obrigar a fazer o curso de direção defensiva. Eu fiz e aprendi muita coisa, apesar de já trabalhar há muitos anos. Nunca é tarde para aprender. E olha que quem está falando é um caminhoneiro de 61 anos de idade e 43 anos de boléia. |
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