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ALEMANHA 2006

REPÓRTER PARA SEMPRE

Aqui, textos de matérias publicadas em revistas e jornais de circulação nacional e internacional  assinadas pelo jornalista Ulisses Iarochinski. Jornal FOLHA DE LONDRINA  Revista CARGA PESADA  Revista JORNAUTO  Revista ESTRADAFORA  Revista TRÂNSITO  Revista CARRETEIRO Rádio NEDERLAND  Jornal O ESTADO DE SÃO PAULO  TV Bandeirantes Tv Record e ......

 

Viagem aos campos alemães de futebol

A crônica Fotos

 

A batalha polaca em Dortmund

 

Ulisses Iarochinski

14 de junho de 2006

"Meu coração polaco, que meu avô trouxe de longe pra mim", mais do que nunca bate, hoje, ao ritmo de “Polska nie zginelo”.

Com as bandeiras polaca e brasileira nos ombros esperava pela vitória da Polônia...foi em vão

  Coração verde-vermelho

Em Dortmund, deixei os pruridos de lado e coloquei sobre os ombros as bandeiras do Brasil e da Polônia. Sobre o lado esquerdo, a bandeira brasileira; do direito, a bandeira polaca. Antes do início do jogo, peço para que o Deus Brasileiro e o Santo Súbito Papa Polaco possam abençoar a vitória da Polônia.

Em seguida, um jornalista macedônio que estava ao meu lado faz o favor de me fotografar com as duas bandeiras. Claro só podia ser da Macedônia - terra de Alexandre - o Grande, da antiga terra dos helênicos - este jornalista, que fotografa um Odisseu do presente.

Logo depois, outro jornalista, um japonês que estava sentado do outro lado, pergunta o porquê das duas bandeiras. Lê meu nome na credencial e faz mais outra pergunta: - Mas és do Brasil, ou da Polônia?

A resposta sai rápida: - do Brasil! Sou polaqueiro paranaense - metade polaco, metade mineiro. Sem entender o que digo, o japonês pede se pode me fotografar. Diz que vai escrever a meu respeito para seu jornal. De repente também sou notícia!

Apesar do branco das camisas alemãs, parece que as arquibancadas do estádio, hoje, estão cobertas apenas pelo vermelho e branco da Polônia. Os polacos invadiram a Alemanha, apesar de Klose e Podolski estarem do outro lado da trincheira. Quem sabe não são agentes infiltrados no ataque inimigo!

É dado o pontapé inicial. No estádio só se ouvem os gritos ensurdecedores de “Polska”, “Polskaaaa”! Mas os alemães não deixam por menos e respondem à altura. Nesse momento, um imenso estandarte começa a ser alçado sobre as cabeças dos torcedores alemães atrás de uma das traves. Surge uma enorme águia negra no corpo de um atacante alemão. É a águia negra da Alemanha contra a águia branca da Polônia. Mais uma guerra vai começar.

Zurawski, o camisa 9, toca para Smolarek, o 15 da Polônia. Jogo iniciado. O coração polaco mais do que nunca dispara e a mente brasileira se emociona. Sim, um jornalista imparcial não poderia se envolver. Mas é diferente! Cabeça e coração dispensam questões profissionais e o que está ali, no belo estádio de Dortmund é um filho de mineira com polaco.

Há poucos metros, no campo, Klose, o 11 polaco da Alemanha rouba a bola e lança o outro polaco da Alemanha, o número 20 Podolski. Os dois silesianos são a esperança de gol da torcida alemã.

As anotações do jogo são feitas no embalo da emoção:

  • A Polônia manda no jogo aos 5 minutos. Fechada atrás, sai trocando passes até a grande área alemã.
  • O lateral do Wisla Kraków tenta um lançamento longo, mas a bola vai além e Zurawski não consegue dominá-la.
  • Zurawski chuta enfim aos 9 minutos, mas o bom goleiro alemão defende com tranqüilidade.
  • Klose chuta com perigo aos 10 minutos e é a vez de Artur começar sua exuberante apresentação. Com certeza quer apagar da memória da torcida, o vexame que foi levar aquele gol do goleiro colombiano de tiro de meta, no amistoso antes da Copa.
  • Até aqui, aos 12 minutos, parece que este é o jogo mais movimentado dos 17 que já aconteceram nesta copa 2006.
  • Jelen, o ex-reserva, que enfim ganhou o posto de titular, inferniza o lado esquerdo da defesa alemã.
  • Ballack tenta organizar os alemães aos 13 minutos. Corre de cabeça erguida como um kaiser alemão.
  • Smolarek cava uma falta aos 15 minutos. Krzynowek, a esperança de termômetro da equipe, cobra a falta muito mal.
  • A Polônia com 3 atacantes, Zurawski, Smolarek e Jelen, nem parece a mesma equipe do primeiro jogo quando perdeu para o Equador por 2 a zero.
  • No ataque alemão só os dois polacos, Klose e Podolski. Não deixa de ser uma ironia... Dois polacos contra seu próprio país de nascimento.
  • Por pouco Klose não faz de cabeça aos 21 minutos. Em seguida dá um pontapé de raiva na trave, que quase sai do lugar.
  • Jelen recebe passe açucarado aos 26 minutos, mas não controla a bola e o alemão vem e chuta para escanteio. São dois escanteios seguidos para a Polônia, mas nada!
  • Alemanha vive apenas de contra-ataque, a Polônia troca passes, mas nada eficaz.
  • Aos 29 minutos, a Alemanha cresce, já é melhor no jogo. A Polônia parece que cansou.
  • A “La Robinho”, pela segunda vez, o alemão Lahm dá suas pedaladas pela esquerda.
  • Aos 35 minutos, Podolski de virada, solta uma bomba dentro da pequena aérea. Mas o goleiro polaco mais uma vez defende com segurança e vai se tornando o principal jogador da equipe no jogo.
  • Jelen ocupa todos os lugares do campo sem descanso... É o único do time que corre e se esforça.
  • A torcida polaca atrás da trave do goleiro alemão ensurdece o estádio com seus gritos de incentivo.
  • Zurawski de virada chuta longe aos 39 minutos.
  • Podolski responde do outro lado invadindo a área aos 40 minutos. Serve o 7 alemão, que chuta muito longe, por cima da trave, desperdiçando a melhor chance alemã de tirar o zero do placar.
  • Podolski, sempre ele, invade a área aos 41 minutos. Chuta e é escanteio para a Alemanha.
  • A Polônia vai ao ataque aos 43 minutos consegue outro escanteio.
  • Para fora! Aos 46 minutos, sozinho na frente do goleiro polaco, Podolski perde mais um gol.
  • Termina o primeiro tempo e o zero a zero não resolve a vida de ninguém. No final parece que de tanto tentar o gol, de tanto trocar passes o time polaco está cansado. O ritmo não é o mesmo do início do jogo. Podolski pela Alemanha e Jelen, mais Artur pelo lado polaco são os destaque do jogo.

Segundo tempo

  • Os times voltam para o segundo tempo sem mudanças. Os dois polacos da Alemanha dão o pontapé, recomeçando a batalha de Dortmund. A Polônia precisa ganhar, mas um empate até que não seria mal.
  • Aos 3 minutos o jogo está amarrado na intermediária.
  • Aos 5 minutos ataca a Alemanha... A Polônia se safa com a bola indo pra escanteio. Na cobrança os alemães quase fazem o primeiro gol. A Alemanha está todinha no campo polaco.
  • Aos 8 minutos é a vez da Polônia pressionar, mas a bola vai para escanteio.
  • O 19 alemão sempre toca bem na bola, enquanto Jelen é o mais perigoso polaco. Na tentativa, ele chuta forte, mas o goleiro alemão defende.
  • Aos 13 minutos, o incansável Jelen é derrubado por Ballack, que recebe cartão amarelo.
  • A Polônia toca mais a bola, mas não leva perigo à meta alemã.
  • Klose avança com perigo, mas falha aos 16 minutos, no momento do arremate.
  • Ballack sai para ser atendido fora de campo e se irrita. O juiz parece que esqueceu dele. O jogo correndo e o egocêntrico alemão gesticula e nada. Três minutos depois, o juiz autoriza seu retorno. Enquanto isso, Podolski por pouco não inaugura o marcador.
  • A Alemanha cresce no jogo e aos 23 minutos o gol é quase certo, mas a bola vai mais uma vez para escanteio.
  • Entra Odonkor na Alemanha, o baixinho ponta direita não dá sossego ao lateral esquerdo polaco.
  • Klose sai em disparada desde o meio campo, mas é contido na pequena área aos 24 minutos do segundo tempo. A Alemanha quer ganhar o jogo. A Polônia parece conformada com o empate, ou não tem forças para ir ao ataque. Zurawski é peça nula.
  • Finalmente a Polônia vai ao ataque, Smolarek invade a área, mas perde a bola aos 28 minutos.
  • Cartão vermelho para o 7 polaco aos 29 minutos. Na seqüência Klose quase faz de cabeça para a Alemanha.
  • O técnico Janas substitui o ineficiente Krzynowek por Lewandowski com a camisa 18.
  • Na Alemanha o “californiano” Klissmann coloca em campo outro alemão com sobrenome polaco: Borowski.
  • O jogo segue. Ballack com seu ar de imperador menospreza a arbitragem. Mas kaiser no futebol alemão só existiu e existirá um: Beckenbauer.
  • A Polônia passa sufoco aos 34 minutos. A Alemanha de Odonkor quer ganhar.
  • O goleiro Artur com duas ótimas defesas consecutivas vai ser tornando o herói da partida. Aos 35 minutos, ele reina absoluto na pequena área.
  •  O jogo entra nos 15 minutos finais, a Alemanha é só pressão.
  • Outra substituição na Polônia que se agüenta com 10 homens em campo. Entra Dudka, dando claros sinais de que o treinador polaco está satisfeito com o empate. Sai Zewlakow.
  • Quase gol alemão aos 44 minutos do segundo tempo. O chute do 18 alemão sai forte, mas lá está Artur.
  • Gol impedido da Alemanha depois da artilharia pesada de seus atacantes. A bola bate duas vezes na trave aos 45 minutos.
  • Sai Jelen e entra o atacante do Wisla Kraków, Brozek. É o tudo, ou nada.
  • Por muito pouco, a Polônia não sofre o gol aos 46 minutos.
  • Prorrogação. A Alemanha massacra com seu ataque. Tenta de todas as formas. O polaco Klose marca pra Alemanha e manda pra casa a seleção dos seus pais.

O jeito é guardar logo as bandeiras. A da Polônia, para não ser provocado na saída do Estádio. Aproveitando guardo a brasileira também. Não faz sentido sair com ela no meio das duas torcidas. A volta para estação de trem com o ônibus especial dos jornalistas é mais demorada que o habitual. Chegando às proximidades da estação, a Polícia bloqueia a passagem. A motorista do ônibus desce e vai conversar com os policiais, mas não consegue convencê-los. O jeito é contornar a estação e ir para o outro lado.

Na plataforma, o trem que vai sair dali a dois minutos, está lotado... Muitos torcedores impedem o fechamento das portas. São muitas pessoas. Esse é o último trem  da noite. É quase uma da madrugada do dia seguinte. Relâmpagos, trovões e grossos pingos de chuva anunciam a tormenta para dali a pouco. Vou até o condutor do trem e mostro a credencial perguntando se posso viajar na cabide com ele. De cara feia responde que não. Ele estava tentando fechar as portas dos vagões para dar a partida. Pega um microfone que não sei se é para falar com a centena de torcedores que ocupam os vagões e toda a plataforma de embarque. A chuva começa para valer. O condutor grita para mim e fala qualquer coisa em alemão. Aceno com a cabeça que não estou entendendo nada. Ele se aproxima da janelinha da locomotiva e faz sinal para que eu entre rápido.

Termino a batalha de Dortmund fazendo minha primeira viagem na cabide de comando de um trem. A viagem é de Dortmund para Hagen. Sim, a cidade natal da famosa roqueira alemã Nina Hagen. A mesma que fez enorme sucesso no Rock-in-Rio. Na estação que devo descer... agradeço ao condutor e digo em inglês que vou escrever sobre a viagem na cabine e ele responde: “I hope so!”.

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