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JOSÉ MARIA SANTOS

IMPRENSA
DIÁRIO DO PARANÁ, CURITIBA, 9 DE NOVEMBRO DE 1969.
Depoimento José Maria dos Santos
Oraci Gemba

Um dos poucos elementos que se dedica inteiramente à profissão teatral, no Paraná. Bastante conhecido do nosso público, Zé Maria iniciou suas atividades em 1954, vive exclusivamente do teatro, dirigindo e interpretando inúmeras peças, fazendo carreira em televisão, é contrário inteiramente à situação de quem faz teatro por complemento salarial, embora considere o teatro amador o verdadeiro responsável pela existência dos nossos melhores profissionais.

- Teatro não deve ser um “bico” – declara o ator 

-  É uma profissão e dela devemos fazer nosso meio de vida, já que nos dedicamos a isso.

Atualmente, é professor de interpretação do terceiro ano do Curso Permanente de Teatro do Guaíra, vem percorrendo o interior com o Tempo da Cultura, com a peça de Jan Hartog, “Leito Nupcial”, e exerce o cargo de vice-presidente na Associação Profissional dos Artistas Paranaenses. 

Teatro deve ser Profissão

Considero minha atividade, no teatro, não só uma opção de caráter artístico – mas a forma de sobrevivência deliberada à minha vocação. Não gostaria de ser um desajustado dentro de duas soluções profissionais. Para isso, organizei uma Companhia profissional – uma das primeiras no Paraná – onde procuro me realizar de forma econômica e artística. Fiz várias apresentações em nossa cidade, corri o interior, passando privações, sempre forçando o mercado, como aliás, deve ser toda a companhia profissional.Recuar diante de uma situação difícil não tem muito sentido para o artista. É verdade que viver de teatro não é fácil – é mais um ato de heroísmo, reservado para quem tem muita coragem. Fácil criticar o teatro comercial – isso tudo mundo faz – mas fazer esse teatro comercial, bem poucos são capazes.

Tentei uma solução, quando organizei a Cia. Dramática Independente, entre o interesse artístico e uma situação de renda econômica. Fui criticado por alguns puristas da arte, de ser um diretor comercial – a verdade é que os puristas desconhecem qualquer forma de organização empresarial e nunca apontam uma saída econômica ou social para o teatro. Sem dinheiro, entretanto, o artista não vive. O público, aquele que paga nossos espetáculos, não aceita o puro vanguardismo artístico. Temos que aliar o gosto ainda subdesenvolvido desse público, a uma parcela de criação artística. Procuro fazer um teatro bem acabado, com textos bons, sem fazer publicidade de conteúdo renovador ou revolucionário.

Outro particular que prejudica a falta de realização puramente artística é o fato de uma ajuda efetiva que nunca tive. Existe, na realidade, uma certa desconfiança ao pessoal que realiza, no Paraná. Uma espécie de condescendência à nossa incapacidade. Eu mesmo, só recebi ajuda econômica no décimo quarto espetáculo, “Leito Nupcial”, quando já tinha dado mostra suficiente de possibilidade da nossa Companhia.Todavia, tenho consciência de que venho realizando o possível, dentro (...) teatro. O caso de “Uma mulher e Três Palhaços”, uma peça difícil de Marcel Archard, foi uma espécie de pioneirismo, até um arrojo para época em que foi encenada.

Assim, uma série de outros espetáculos, não tão de vanguarda, mas que trouxeram certa compensação artística, “Do Tamanho de Um Defunto”, de Millôr Fernandes, “Homem de Flor na Boca”, de Pirandello, “Esta Noite Estou Só”, “Amanhã, Se Não Chover”, etc., garantiram a sobrevivência da Companhia e deram trabalho a muita gente.Com dificuldade ou não, entendo que devemos continuar dentro do terreno profissional. Particularmente é uma decisão tomada segundo meus princípios de vida. Ou vivo daquilo que gosto, ou acabo no Retiro dos Artistas – que não deixa de ser nosso próprio meio. Não sei usar a desonestidade dentro da profissão, mas reconheço que existem muitos quitandeiros profissionais. Infelizmente, somos obrigados a deparar com esses elementos pela nossa frente – mas eles não estão só no teatro. É desagradável reconhecer esse fato, principalmente quando se dedica à profissão como forma de sobrevivência. 

O teatro brasileiro está à falência

E por circunstâncias diversas, ligadas à sua organização econômica. Um teatro que vive de verbas oficiais que não criou estrutura comercial, uma organização empresarial, só pode desaparecer. Só não acabou ainda porque um grupo de abnegados – eles sempre existem – tenta manter uma resistência. Enquanto não for criada uma substância empresarial que sustente suas bases, com uma planificação de independência, calcada na receita vinda diretamente do público consumidor, não podemos falar em desenvolvimento e, isto sim, em apenas possibilidades de falência. Mas tudo parece ter caráter improvisado. Aqui no Paraná, por exemplo, as coisas já se iniciaram de cima para baixo. Existe uma grande classe profissional, que luta por direitos salariais, etc., mas ainda não existe a classe patronal. É evidente que se reivindica melhores condições ou níveis salariais, quando estiver desenvolvida ou, pelo menos, definida uma situação empresarial. Existe uma Associação de proteção aos artistas profissionais, que estabelece a organização salarial, quando o setor patronal está desarticulado, sem uma organização equivalente.

O Teatro de Comédia do Paraná, como entidade oficial, paga bons salários, mas sua atividade não é permanente, incapaz de manter um elenco em continuidade de trabalho. Os atores e técnicos são obrigados a recorrer às outras companhias particulares que, por sua vez, não podendo manter os mesmos níveis salariais, estabelece a crise, e conseqüentemente, a irrealização. Chegamos, então, ao ponto realmente importante. Os atores também deveriam ter maior interesse pela sorte econômica das companhias. Enquanto não se estabelecer o desenvolvimento das empresas, como poderá reclamar empregos e, muito menos, salários bons.Apesar disso tudo, chegamos a manter um certo equilíbrio de realizações – Seisnarte, Escala, Rotunda, Teatro Jovem, Ferramenta, Companhia Dramática Independente – são grupos que têm conseguido o milagre da imposição, do valor pessoal de cada um, perfeitamente aptos a melhores oportunidades. Esse negócio de que “santo de casa não faz milagres”, tem prejudicado bastante, inclusive quando chega ao ouvido do público. Antes de se saber se têm condições ou não, de fazer milagres, é preciso apresentar oportunidades válidas.

Fundação, Uma Nova Fase

Agora estamos diante de uma espera, com a transformação do Teatro Guaíra em Fundação. Não tenho idéia da organização dessa fundação, mas sei que vai descentralizar um pouco o acúmulo de trabalho que sobrecarrega a Superintendência do Teatro. Um divisão de tarefas e de responsabilidades, facilitará o encaminhamento das coisas. A burocracia só atrapalha, quando não possui uma responsabilidade determinada. Ela tem sido um grande empecilho e vem criando certas dificuldades.