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Enquanto
alguns espetáculos conseguem faturar por volta de 8 mil cruzeiros em temporadas
completas em Curitiba, “Doce Primavera”, que estréia hoje no Teatro Guaíra
em sua segunda montagem, faturou 30 mil em recente excursão pelo interior. A
informação é de José Maria Santos, que fala sobre a interiorização do
teatro, caracteriza a platéia, e conta das picaretagens que estão ocorrendo em
nome do teatro pelo interior. Zé Maria explica também, porque este texto, que
não é linear, conseguiu atingir a platéia de forma inesperada, e que sua
renda será utilizada para início de obras do único teatro particular de
Curitiba. No
interior:
Espetáculos
e picaretagens Estréia
hoje, no pequeno auditório do Teatro Guaíra, a segunda montagem da peça, Doce
Primavera, de Manoel Carlos Karam. Esta estréia, traz em si, alguns fatos que
devem ser destacados. Em primeiro
lugar, dificilmente uma peça local chega a fazer uma temporada e recebe uma
segunda montagem, em espaço de tempo tão curto como ocorreu em Doce Primavera.
Em segundo lugar, apesar de estar já em sua segunda apresentação. Doce
Primavera fará, ao contrário da maioria das montagens locais, uma temporada
corajosamente por três semanas. E, completando o panorama, em sua recente
temporada pelo interior, o espetáculo caracterizou-se como um verdadeiro
sucesso de público, ao contrário do que se podia esperar, tanto pelas notícias
que chegam a Curitiba, em relação a renda de espetáculos levados ao interior,
como também pelo fato de tratar-se de um texto que não é linear, em nenhum
momento. Muito pelo contrário. A praça do interior A
primeira montagem de Doce Primavera aconteceu no Teatro do Paiol, um ano depois
que o Grupo Margem arrendou o ex-teatro de Bolso, na Praça Rui Barbosa, e
colocou em prática e em experimentação todas as encucações e teorizasões
que tinham a respeito do teatro, um teatro um pouco diferente daquele proposto
de um modo em geral pelo pessoal egresso do Curso Permanente de Teatro da Fundação
Teatro Guaíra. Durante o período do teatro de Bolso, o Margem apresentou, o
que chamava de peças experimentais, caracterizadas sempre por espetáculos onde
a presença do público era bastante reduzida, e composta quase das mesmas
pessoas. Grande parte dos “nomes” do “teatro paranaense”, criticou este
trabalho do Margem, e a regra foi sempre de por em dúvida a validade das coisas
que aconteciam no pequeno teatro, cheio de colunas incômodas que dependendo da
poltrona, tiravam totalmente a possibilidade de visão do espetacular. Passar ao público Na
verdade, e há suficientes provas disto grande parte destes ‘’nomes’’ de
teatro, não assistiu um espetáculo sequer, para chegar as suas brilhantes
conclusões, e a posição negativa em relação ao Grupo Margem, vinha sempre
repleta de mil argumentos, sendo os mais brandos presos ao fato de que os espetáculos
do Margem de então, não passavam de exercícios onde o público não contava
nada, ou então, que o grupo brincava de teatro para ‘’meia dúzias de gatos
pingados’’. Apesar disso, tudo e ainda mais, das dificuldades de sobrevivência
do Grupo que ao contrário de outros não tem relógio ponto, por exemplo e
sempre teve enormes dificuldades para obter auxílios oficiais, o margem
resistiu na praça, quase até a chegada do primeiro trator que veria por abaixo
o velho teatro, onde Zé Maria pensou em certa época, em organizar um laboratório
de teatro, dentro de sua oposição contrária de super valorizar a teoria para
o aluno de curso de teatro. Zé, um dos poucos Zé
Maria Santos, ator experiente que só não nasceu em um palco por pura
fatalidade, pois vive de teatro, e acha inclusive que as ‘’coisas’’ não
estão somente boa, como também maravilhosa, foi uma das poucas exceções que
acreditou no trabalho do Margem e inclusive chegou a participar com o grupo, na
realização de um espetáculo no teatro de Bolso. ‘’Dirigi a coisa sem
cobrar um vintêm porque acreditava no trabalho do pessoal. O grupo precisava
passar por aquela fase, aprender coisas, e o próprio Karam como autor
precisava, para enriquecer seus textos, sentir a carpintaria do teatro, para
chegar mais na coisa’’. E a posição do Karam não é muito diferente:
“queríamos fazer teatro, não tínhamos quem nos ensinasse, e então
decidimos aprender fazendo. A experiência do Teatro de Bolso foi boa porque,
realmente não havia de nossa parte a preocupação de público em primeiro
lugar, mas este público acabava acontecendo, e através dele podíamos sentir
melhor o espetáculo’’. De despeito Na
verdade, estas discussões caem sempre para o patente desrespeito ao público,
que vem ocorrendo impunemente em nosso meio teatral. E estes desrespeitos começa
á partir do momento em que os grupos que promovem espetáculos, não se
preocupam em momento algum com a platéia, como se ela não fosse imprescindível
para acontecer realmente o teatro. Zé Maria faz questão de lembrar a
obrigatoriedade imposta pelo Serviço nacional de Teatro, que condiciona a
distribuição de verba auxílio, a apresentações do espetáculo no interior,
dentro da política da interiorização cultural: “Esta foi das coisas mais
acertadas, pois era preciso acabar com o paternalismo tolo, de dar dinheiro e não
pedir nada em troca. A verba que o INT dá é suficiente não só para pagar a
produção, como também o cachê dos atores, aluguel do teatro e ainda sobra um
lucrozinho. Isto, no entanto, está levando certos grupos a ignorar totalmente a
platéia. Porque veja, o cara já está com o tutú na mão, depois faz uma
temporada de 10 a 15 dias e se não tiver público não faz mal. Pois também não
houve prejuízo. “A sugestão de Zé Maria é que o INT exigisse dos grupos não
apenas as 40 apresentações do espetáculo pelo interior como também exigisse,
e mesmo fiscalizasse, a questão de público. Financiar a platéia O
que está ocorrendo , segundo Zé, é que os grupos estão sendo financiados,
quando a platéia é que deveria receber este financiamento. “O que adianta
financiar um espetáculo que não é assistido? É preciso subvencionar o público
e não o espetáculo. Eu tenho recebido verba oficial, acho ótimo, mas veja, se
não a verba eu trabalho do mesmo jeito, não fico condicionado ao auxílio,
enquanto um outro pessoal não: aparece a verba, sobram espetáculos, a verba
some, somem também as peças teatrais. E os financiamentos tem sido
generalizados: O Imperador da Assíria recebeu, também a Alzira Power, o Cerco
da Lapa. Acho que deveria existir inclusive uma comissão de alto nível, para
fiscalizar não só a ocorrência de publico, como também o nível destes espetáculos”. Picaretagem no interior O
contrário do que se imagina, Zé Maria afirma, categórico, que esta ocorrendo
muito teatro no interior, e é inclusive comum que o pessoal acabe cruzando nas
mesmas cidades. Mas aí, segundo o próprio Zé aparece novamente, o velho
problema da falta de qualidade: “o que se vê pelo interior, salvo raras
excessões, é uma tremenda picaretagem que denominam “generosamente” de
teatro. Isto inclusive atrapalha o trabalho da gente, porque acaba ficando uma
imagem distorcida da coisa. São muito frequentes os espetáculos mal
feitos com o único intuito de tomar dinheiro do público. Há um cara, por
exemplo, que está fazendo um certo monólogo pelo interior há uns trezentos
anos. É um rapaz simpático, mas que deveria estar vendendo bananas ao invés
de teatro, pois por onde ele passa, dificilmente se consegue vender depois um
espetáculo”. |
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