Portal
Acima

JOSÉ MARIA SANTOS

IMPRENSA
Diário da Tarde, Curitiba, 12 DE maio DE 1976.
ARTE E EDUCAÇÃO

Enquanto alguns espetáculos conseguem faturar por volta de 8 mil cruzeiros em temporadas completas em Curitiba, “Doce Primavera”, que estréia hoje no Teatro Guaíra em sua segunda montagem, faturou 30 mil em recente excursão pelo interior. A informação é de José Maria Santos, que fala sobre a interiorização do teatro, caracteriza a platéia, e conta das picaretagens que estão ocorrendo em nome do teatro pelo interior. Zé Maria explica também, porque este texto, que não é linear, conseguiu atingir a platéia de forma inesperada, e que sua renda será utilizada para início de obras do único teatro particular de Curitiba.

 No interior:  Espetáculos e picaretagens

Estréia hoje, no pequeno auditório do Teatro Guaíra, a segunda montagem da peça, Doce Primavera, de Manoel Carlos Karam. Esta estréia, traz em si, alguns fatos que devem ser destacados. Em  primeiro lugar, dificilmente uma peça local chega a fazer uma temporada e recebe uma segunda montagem, em espaço de tempo tão curto como ocorreu em Doce Primavera. Em segundo lugar, apesar de estar já em sua segunda apresentação. Doce Primavera fará, ao contrário da maioria das montagens locais, uma temporada corajosamente por três semanas. E, completando o panorama, em sua recente temporada pelo interior, o espetáculo caracterizou-se como um verdadeiro sucesso de público, ao contrário do que se podia esperar, tanto pelas notícias que chegam a Curitiba, em relação a renda de espetáculos levados ao interior, como também pelo fato de tratar-se de um texto que não é linear, em nenhum momento. Muito pelo contrário.

 A praça do interior 

A primeira montagem de Doce Primavera aconteceu no Teatro do Paiol, um ano depois que o Grupo Margem arrendou o ex-teatro de Bolso, na Praça Rui Barbosa, e colocou em prática e em experimentação todas as encucações e teorizasões que tinham a respeito do teatro, um teatro um pouco diferente daquele proposto de um modo em geral pelo pessoal egresso do Curso Permanente de Teatro da Fundação Teatro Guaíra. Durante o período do teatro de Bolso, o Margem apresentou, o que chamava de peças experimentais, caracterizadas sempre por espetáculos onde a presença do público era bastante reduzida, e composta quase das mesmas pessoas. Grande parte dos “nomes” do “teatro paranaense”, criticou este trabalho do Margem, e a regra foi sempre de por em dúvida a validade das coisas que aconteciam no pequeno teatro, cheio de colunas incômodas que dependendo da poltrona, tiravam totalmente a possibilidade de visão do espetacular.

Passar ao público

Na verdade, e há suficientes provas disto grande parte destes ‘’nomes’’ de teatro, não assistiu um espetáculo sequer, para chegar as suas brilhantes conclusões, e a posição negativa em relação ao Grupo Margem, vinha sempre repleta de mil argumentos, sendo os mais brandos presos ao fato de que os espetáculos do Margem de então, não passavam de exercícios onde o público não contava nada, ou então, que o grupo brincava de teatro para ‘’meia dúzias de gatos pingados’’. Apesar disso, tudo e ainda mais, das dificuldades de sobrevivência do Grupo que ao contrário de outros não tem relógio ponto, por exemplo e sempre teve enormes dificuldades para obter auxílios oficiais, o margem resistiu na praça, quase até a chegada do primeiro trator que veria por abaixo o velho teatro, onde Zé Maria pensou em certa época, em organizar um laboratório de teatro, dentro de sua oposição contrária de super valorizar a teoria para o aluno de curso de teatro.

Zé, um dos poucos

 Zé Maria Santos, ator experiente que só não nasceu em um palco por pura fatalidade, pois vive de teatro, e acha inclusive que as ‘’coisas’’ não estão somente boa, como também maravilhosa, foi uma das poucas exceções que acreditou no trabalho do Margem e inclusive chegou a participar com o grupo, na realização de um espetáculo no teatro de Bolso. ‘’Dirigi a coisa sem cobrar um vintêm porque acreditava no trabalho do pessoal. O grupo precisava passar por aquela fase, aprender coisas, e o próprio Karam como autor precisava, para enriquecer seus textos, sentir a carpintaria do teatro, para chegar mais na coisa’’. E a posição do Karam não é muito diferente: “queríamos fazer teatro, não tínhamos quem nos ensinasse, e então decidimos aprender fazendo. A experiência do Teatro de Bolso foi boa porque, realmente não havia de nossa parte a preocupação de público em primeiro lugar, mas este público acabava acontecendo, e através dele podíamos sentir melhor o espetáculo’’.

De despeito

Na verdade, estas discussões caem sempre para o patente desrespeito ao público, que vem ocorrendo impunemente em nosso meio teatral. E estes desrespeitos começa á partir do momento em que os grupos que promovem espetáculos, não se preocupam em momento algum com a platéia, como se ela não fosse imprescindível para acontecer realmente o teatro. Zé Maria faz questão de lembrar a obrigatoriedade imposta pelo Serviço nacional de Teatro, que condiciona a distribuição de verba auxílio, a apresentações do espetáculo no interior, dentro da política da interiorização cultural: “Esta foi das coisas mais acertadas, pois era preciso acabar com o paternalismo tolo, de dar dinheiro e não pedir nada em troca. A verba que o INT dá é suficiente não só para pagar a produção, como também o cachê dos atores, aluguel do teatro e ainda sobra um lucrozinho. Isto, no entanto, está levando certos grupos a ignorar totalmente a platéia. Porque veja, o cara já está com o tutú na mão, depois faz uma temporada de 10 a 15 dias e se não tiver público não faz mal. Pois também não houve prejuízo. “A sugestão de Zé Maria é que o INT exigisse dos grupos não apenas as 40 apresentações do espetáculo pelo interior como também exigisse, e mesmo fiscalizasse, a questão de público.

Financiar a platéia

O que está ocorrendo , segundo Zé, é que os grupos estão sendo financiados, quando a platéia é que deveria receber este financiamento. “O que adianta financiar um espetáculo que não é assistido? É preciso subvencionar o público e não o espetáculo. Eu tenho recebido verba oficial, acho ótimo, mas veja, se não a verba eu trabalho do mesmo jeito, não fico condicionado ao auxílio, enquanto um outro pessoal não: aparece a verba, sobram espetáculos, a verba some, somem também as peças teatrais. E os financiamentos tem sido generalizados: O Imperador da Assíria recebeu, também a Alzira Power, o Cerco da Lapa. Acho que deveria existir inclusive uma comissão de alto nível, para fiscalizar não só a ocorrência de publico, como também o nível destes espetáculos”.

Picaretagem no interior

O contrário do que se imagina, Zé Maria afirma, categórico, que esta ocorrendo muito teatro no interior, e é inclusive comum que o pessoal acabe cruzando nas mesmas cidades. Mas aí, segundo o próprio Zé aparece novamente, o velho problema da falta de qualidade: “o que se vê pelo interior, salvo raras excessões, é uma tremenda picaretagem que denominam “generosamente” de teatro. Isto inclusive atrapalha o trabalho da gente, porque acaba ficando uma imagem distorcida da coisa.

São muito frequentes os espetáculos mal feitos com o único intuito de tomar dinheiro do público. Há um cara, por exemplo, que está fazendo um certo monólogo pelo interior há uns trezentos anos. É um rapaz simpático, mas que deveria estar vendendo bananas ao invés de teatro, pois por onde ele passa, dificilmente se consegue vender depois um espetáculo”.  

 
Compre  o livro
 
Compre  o filme 
 
PREÇO DE CADA :   R$ 25,00 , mais despesas de correio. telefone para: 
041 336 4275.