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JOSÉ MARIA SANTOS

IMPRENSA
Jornal do Estado, Curitiba, 4  de maio de 1990. Espaço Dois. 
José Maria Santos “O Maldito Samovar e o despertar de vocações”
Cley Scholz

 Na foto envelhecida, quatro atores estão sentados em volta de uma mesa, em uma sala burguesa da Rússia do início do século. Sobre a mesa o samovar – maldito samovar – diria o saudoso ator José Maria Santos, personagem que marcou a história do teatro paranaense pelo seu trabalho nos últimos 36 anos. O samovar, um aparelho de servir chá, mantendo-o aquecido, foi, por estranho que pareça, um dos maiores obstáculos na montagem da peça “Pequenos Burgueses”, de Máximo Gorki, pelo teatro da Escola Técnica Federal do Paraná (hoje Cefet), em 1976.

Como diretor do grupo e professor de teatro da Escola Técnica, José Maria percebeu que seria mais difícil para os alunos entender para que seria aquele “ obtuso “ aparelho de chá, do que compreender o texto do escritor russo. O texto, aliás, dizia respeito diretamente à vida dos estudantes dos cursos técnicos, boa parte deles filhos de operários e assalariados, injustiçados, como o personagem Nil Vassiliewch que representava o trabalhador das fábricas da Rússia Tzarista. 

Depois de muitas tentativas para se cortar o samovar do texto, o que foi impossível, já que o objeto era tema de vários diálogos e às vezes motivos de briga na família – o jeito foi tratar de procurar um samovar nos antiquários de Curitiba e encaixar algumas frases que explicassem a utilidade daquele “trambolho” de quase um metro de altura.

Com o tempo, o samovar passou a ser um objeto familiar para os alunos que participavam da montagem da peça. Afinal, foram meses de trabalho, sempre das 20 às 23h30min. O grupo se reunia para intermináveis leituras e, pouco a pouco, ensaios de palco, na montagem de um espetáculo que, no mínimo, ajudou muitos dos alunos a entender o período político por que passa o Brasil. A decadência da sociedade tzarista tem muito a ver com a degeneração dos valores da sociedade capitalista atual, e, mais especificamente, a crise da sociedade brasileira nos últimos 30 anos. Não é a toa que “Pequenos Burgueses” foi encenada em 1963, pelo Teatro Oficina, sob direção de José Celso Martinez Correa.

Samovar à parte, o professor José Maria fez com que os alunos da Escola Técnica representassem no palco cenas que lhes ajudariam a compreender suas próprias vidas, dando a elas uma nova dimensão. Não só na peça de Máximo Górki, mas várias outras, como em “Invasão”, peça de Dias Gomes, que foi censurada muitos anos e retrata a vida de um grupo de favelados que, sem ter onde morar, decide invadir um edifício abandonado. Esta peça foi, aliás, baseada em um fato real: no final dos anos 50, um edifício em construção próximo ao Estádio do Maracanã no Rio de Janeiro foi invadido e ficou sendo conhecido como Favela do Esqueleto. Hoje a favela não existe mais, no edifício funcionam alguns cursos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Mas existem pelo país agora, milhares de outros prédios, casas e terrenos invadidos pelos sem-terra e sem-teto.

Numa discussão entre membros de uma mesma família, dois personagens de Dias Gomes travam um diálogo que poderia muito bem estar em “Pequenos Burgueses”. O filho nega-se a seguir a mesma carreira do pai, ex-jogador de futebol e afronta o pai afirmando que pretende ser operário, trabalhar em uma fábrica e não ficar correndo atrás da bola. O pai, um bêbado que se alimenta de álcool e lembranças de um passado glorioso, responde com desgosto:

- Viver sempre na merda, é isso que você quer?

O teatro da Escola Técnica encenou também comédias (“A Guarda Cuidadosa” e “Faladores” de Cervantes; “Chapetuda Futebol Clube” de Oduvaldo Viana Filho”;  “Doente Imaginário” de Moliére, entre outras) e também textos poéticos (“Na Boca dos Poetas”, coletânea de versos dos maiores poetas da língua portuguesa). E isso dentro de uma Escola que busca a formação de técnicos. O ensino do teatro acabou mostrando uma forma de educação integrada, que abriu as portas para outros campos do conhecimento, despertando vocações e desenvolvendo a percepção para os valores filosóficos – em oposição, ou como complemento ao mundo da eletrônica, da matemática algébrica, da trigonometria, da mecânica e das edificações.

Não se tratava simplesmente de tentar formar atores, muito pelo contrário, foram poucos os que saíram do grupo para a carreira profissional nos palcos. Tratava-se muito mais de enriquecer a formação profissional de centenas de adolescentes, fazendo-os crer neles mesmos, ensinando-lhes a se expressar física e verbalmente e introduzindo-lhes no mundo da cultura – não só do teatro, mas da literatura, da poesia, da estética e da dramaturgia de um modo mais abrangente.

Quando alguns amigos de José Maria Santos e o Jornal do Estado lançam a idéia de rebatizar o Tetro da Classe/Treze de maio, construído pelas próprias mãos do ator, e que está agora sendo reformado, com seu nome, não se trata apenas de homenagear a pessoa do “Zé”, mas também de valorizar o teatro como instrumento educacional e de aperfeiçoamento humano. Quem deu sua vida pelo Teatro não pode ser esquecido por quem continua lutando por uma sociedade mais humana. José Maria Santos deve ser lembrado como exemplo.

Com seu jeito simples e bonachão, José Maria Santos não deve estar ligando muito para essa idéia de mudar o nome do teatro, deve estar mais preocupado em ensaiar, lá no céu alguma peça engraçada, com aqueles atores todos vestidos de anjo em algum cenário cheio de nuvens. Neste momento, quem sabe, pode estar dando uma bronca daquelas que costumava dar nos seus alunos, sempre com bom humor, quando estes demonstravam pouco entusiasmo na representação de um texto qualquer.

- Mais força, por favor, você mais parece uma vaca de presépio.

(Cley Schotz foi aluno do curso de Telecomunicações da Escola Técnica Federal do Paraná – CEFET – e aluno-ator de Zé Maria entre 1975 e 78. E é o atual chefe da reportagem do jornal “O Globo” em São Paulo).

 
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