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JOSÉ MARIA SANTOS

IMPRENSA
Jornal do Estado, Curitiba, 22 de janeiro de 1991. Espaço Dois.
Zé Maria e eu: um papo de esquina
Jorge Luiz Bostelmann de Oliveira

 Encontrei com o Zé Maria um dia desses na rua, e ele me falou que está procurando um novo texto para montar. Enquanto não acha, vai aproveitar uns furos na programação do Guairinha para uma nova edição do “LÁ”.

Protestei.

- Pô, Zé, de novo esta peça..

Ele deu aquele sorriso de quem sempre tinha um ás escondido na manga e respondeu:

- Eu adaptei algumas coisas, botei alguns cacos no texto e, agora, o cara é um funcionário público que vai pro banheiro no final do expediente com uma puta caganeira nervosa porque descobriu que entrou no listão das disponibilidades. Ah! O papel higiênico é collorido, afinal, pra limpar tanta cagada, só com papel higiênico collorido.

E, enquanto ia falando sobre as modificações na peça, o tom de voz subia. A linguagem irreverente, pontilhadas com alguns palavrões chamava atenção e assustava a tradicional família curitibana. Até o sinaleiro da esquina ficou vermelho. Fico imaginando se foi coincidência. Quis saber o que o Zé pretendia montar e ele foi logo explicando:

- Quero aproveitar o clima eleitoral e fazer alguma coisa do tipo “Nem gay, nem bicha”. Mas tá difícil arrumar um título. Já me sugeriram “O bom, o mau e o feio”. “ As desventuras do truculento, truculento e Zezito chamando no caminho do Iguaçu”. ”O trio parada dura”... mas acho que vou ficar mesmo é com “Parafuso solto procura porca pra se arrumar”.

Sempre cheio de idéias, o Zé estava pensando em inovar. A peça não seria dividida em atos: teria dois turnos. Também, não teria elenco de apoio: teria secretariáveis. A única dúvida do Zé, era se teria que submeter o texto ao TRE*. Afinal, não queria correr o risco de que alguém na platéia decidisse pedir direito de resposta, ou pior.

-   Já imaginaram um trecho do espetáculo suspenso por alguns minutos. E, com um enorme cartaz no palco avisando: suspenso por determinação do TRE? Isso seria terrível. O público poderia dispersar e, no final, era capaz de achar a maquininha de pipoca mais interessante que a peça. Mas sobre uma coisa o Zé tinha certeza.

- Vou pedir ao TRE meu espaço na televisão. Afinal, se os outros podem anunciar seus espetáculos de graça, por que não eu! Acabei concordando, mas resolvi mudar o assunto e arrisquei logo uma provocação:

- E o Teatro da Classe, Zé? Aquilo lá tá mais pra teatro do absurdo... 

- Iiii, rapaz - foi logo respondendo - tá uma enrolação danada. Botaram a coisa na mão de uma turma devagar e taí o teatro parando. Tão preocupados com bobagens, perdendo tempo com picuinhas, muita bronca, pessoal no meio e vou te contar: arrisca eu morrer e não ver aquele teatro em pé!

Nesta altura começou um alvoroço na rua. Formou uma tremenda multidão e, até pensei que alguém tinha sido esfaqueado e o povão tava lá curtindo o passamento de algum infeliz. Foi aí, que um guarda do BPTran, com aquela educação peculiar - isso é sério - chegou perguntando:

- Muito bem, de quem é essa coisa aí?

A multidão abriu e eu quase cai de costas. Tava ali, na minha frente, uma carruagem puxada por seis cavalos brancos. O guarda foi logo intimando:

- Se não tirar eu multo.

Sem mais aquela, andou em direção a (sic) carruagem. Foi neste momento que os seis cavalos, em puro ato orquestrado de desobediência civil, deram uma solene cagada no asfalto, sem se importar muito com a vexada autoridade. A multidão foi ao delírio. Pensei comigo: - Porra, só o Zé pra fazer merda ter graça.

Nesta altura, o Zé já estava dentro da carruagem distribuindo bônus pro próximo espetáculo. Pois é, o Zé é assim.

Quando a carruagem arrancou, me deu um aceno e berrou:

“Te espero pra estréia...” com aquele sorriso cínico de quem tinha economizado um convite. Não que o Zé fosse pão duro. É que ele sabia que eu não gostava de estréias. Pensei em responder, mas a carruagem já estava dobrando a esquina.

Foi aí que o guarda chegou pra mim.

- Ei, você é amigo do cara? Tá aqui a multa. Vê se entrega pra ele.

- É seu guarda, um dia eu entrego...

 

Passado um ano da morte de Zé Maria, fico pensando como nós vivos somos egoístas, intolerantes e, por vezes, incompetentes.

Proporcionalmente, resguardadas as relações entre uma vida e uma discussão, se é que isto é possível, a celeuma em torno da nominação do Teatro da Classe, já dura mais tempo que a própria vida do Zé.

 
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