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JOSÉ MARIA SANTOS

IMPRENSA
O Estado do Paraná, Curitiba, 21 de março de 1971. 
(reproduzido do Jornal do Comércio, de Porto Alegre)
O mundo cruel de Mariazinha
Marcelo Renato

Coube à Companhia Dramática Independente, de Curitiba, uma responsabilidade dupla em Ponto Alegre: apresentar uma autora famosa, ainda desconhecida aqui, e dar uma amostra da qualidade do teatro que está sendo feito no Paraná. Foi uma surpresa para muitos dos que costumam torcer o nariz àquilo que não vem do Rio ou de São Paulo. Com “Fala Baixo Se Não Eu Grito”, Leilah Assunção nos faz participar de uma profunda experiência humana, cômica, grotesca, lírica, cruel; com seu espetáculo, a Companhia Dramática Independente deixa a impressão de que se há outras companhias do mesmo nível em Curitiba, o teatro paranaense vai muito bem.

“Fala Baixo Se Não Eu Grito” não é uma peça perfeita. Aliás, à nova safra de dramaturgos brasileiros, quase todos muitos jovens, a perfeição é algo secundário. O importante é o depoimento sobre o tempo em que vivem.

Um testemunho pessoal, autêntico, de gente comprometida com a vida. Como José Vicente e Antonio Bivar. Leilah tinha pouco mais de 20 anos ao lançar essa sua primeira peça – a segunda que escreveu. Daí o espanto que causa a vitalidade de sua obra, sua apreensão de um mundo – o de Mariazinha Mendonça de Morais – produto simbólico de um tempo falido que urge ser transformado.

Um pequeno quarto num “pensionato de moças finas e honestas”; fitas e rendinhas nos móveis; balões; bonecas, flores artificiais; um aparelho de televisão num carrilhão, e flores, muitas flores, tudo bem organizado, arrumado, grotesco – “Aqui jaz Mariazinha Mendonça de Morais”.

Mariazinha se prepara para as 8 horas diárias de sono, “ideal para conservar a pele sempre jovem e descansada”; Mariazinha conversa com seus objetos, seus mortos; Mariazinha recorda seu passado, Mariazinha se apresenta.

Mariazinha tem uma preocupação – acha que cresceu e que não cabe mais dentro das coisas em que cabia quando era pequena – mas continua tentando caber; Mariazinha era uma criança prendada; Mariazinha esperou o seu príncipe encantado – alto, forte, moreno de olhos verdes, trabalhador, honesto; hoje, Mariazinha se considera uma moça “esclarecida”. Ela não acredita, por exemplo, num Deus barbudo – “Deus é uma luz, Deus é uma luz fosforescente e infinita”. É uma mulher que andou sempre com rumo certo. Mariazinha acha que é feliz, que não está sozinha, tem muitos colegas, muitos amigos, vive numa grande cidade, cercada de milhões de pessoas, tem “posição”, “conforto”, “segurança”... Mariazinha é uma moça prendada. Pra que?

De repente surge um estranho, um homem que se apresenta como um ladrão em dia de folga, falando coisas que Mariazinha não entende. Ele também não entende Mariazinha, mas se pretende modificá-la. Ele propõe que amanhã será um “Dia Branco”, Mariazinha vai faltar ao emprego, não vai fazer nada do que tinha previsto fazer. Mas Mariazinha não pode faltar ao emprego, ter o ponto cortado – há cinco anos ela paga um apartamento que vai lhe dar segurança na velhice, apartamento que está quase pago, apartamento sonhado há muito, que será pintado de branco, terá muitas flores... E há as prestações do Mappin... Mariazinha não o aceita mais do que ele a aceita, mas o homem a confunde, a envolve. Ele acha que está tudo errado, portanto, “a gente pode sair inventando que já é bom, mas daí tem que ver do outro jeito, do jeito certo”. Mas que jeito é esse, ele não sabe – “se eu soubesse não estava aqui”.

Mariazinha, morto-vivo, ainda não entregou completamente à morte e a pequena chama de vida que ainda sopra é o seu elo de ligação com o estranho – remotamente Mariazinha desejaria ver esta chama brilhar mais intensamente. E é esta chama que permite o jogo.

Condutor, o homem dá as cartas, dirige as jogadas. E põe em leilão valores de Mariazinha. Violando-a, leva-a à descoberta da morte como única saída. Proposta a desordem como preâmbulo.

(...)

Unidos – numa mesma entrega, a fantasia os envolve e eleva – afinal, Mariazinha sempre precisou de mentiras em que pudesse acreditar. Mas a mentira não se sustenta e Mariazinha volta à realidade, onde lhe foi mostrada sua miséria, seu ridículo, onde precisa manter o nome limpo na praça, pagar as prestações do Mappin, onde ouve uma voz que avisa de que já é tarde e vai acabar perdendo o ponto... Animal ferido, o desespero é expresso por um grito.

O espetáculo dirigido por Oraci Gemba para a Companhia Dramática Independente tem seu maior prejuízo numa falha da autora: a falta de economia, os excessos de falas, o prolongamento dos diversos efeitos dramáticos, prejudicando a unidade rítmica, a fluência da ação cênica.

Ao estudar o texto, o diretor Gemba sentiu o problema. Efetuou alguns cortes, mas não ousou o suficiente. Os momentos que se seguem à destruição do cenário, sobretudo, se estendem de maneira cansativa para o espectador.

Mas, em troca, “Fala Baixo Se Não eu Grito” encontra no diretor Gemba um bom parceiro para que se estabeleça o acontecimento teatral, proporcionado ao espectador pelo texto-espetáculo. Inteligente, sensível e criativo, imprimiu uma visão própria à montagem, compreendendo e explorando as formas, ora realista, ora fantástica, de que Leilah se serve. Um achado da dupla curitibana Oraci Gemba-José Carlos de Proença (este cenógrafo de grande expressividade) é a destruição total do cenário – inclusive as paredes do quarto de Mariazinha, e o surgimento de um cemitério ao fundo, símbolos do rompimento total da personagem com as estruturas que edificara num mundo morto.

Lala Schneider defende sua Mariazinha com unhas e dentes e passa à platéia toda a gama de emoções sentidas por Mariazinha. José Maria Santos atua num outro nível de interpretação, mais crítico, distanciado do personagem. A visão do diretor e do ator em relação ao homem é um outro aspecto positivo da montagem. Pouco definido no texto – um ladrão em dia de folga – no espetáculo ele é, antes de tudo um marginal dentro da ordem estabelecida, que protesta contra o status quo mas não tem nenhuma saída a oferecer. Anarquista, destrói; solitário numa cidade de onze milhões de habitantes, se propõe dialogar, mas é radical em sua posição intuitiva e não aceita que dele discordem. Sua opção marginal ladrão hippie, etc. – não interessa muito, mas sim a gratuidade da posição.

A presença da Companhia Dramática Independente é positivamente marcante nesta  temporada. Merece o sucesso que está obtendo.

 
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