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Coube
à Companhia Dramática Independente, de Curitiba, uma responsabilidade dupla em
Ponto Alegre: apresentar uma autora famosa, ainda desconhecida aqui, e dar uma
amostra da qualidade do teatro que está sendo feito no Paraná. Foi uma
surpresa para muitos dos que costumam torcer o nariz àquilo que não vem do Rio
ou de São Paulo. Com “Fala Baixo Se Não Eu Grito”, Leilah Assunção nos
faz participar de uma profunda experiência humana, cômica, grotesca, lírica,
cruel; com seu espetáculo, a Companhia Dramática Independente deixa a impressão
de que se há outras companhias do mesmo nível em Curitiba, o teatro paranaense
vai muito bem. “Fala
Baixo Se Não Eu Grito” não é uma peça perfeita. Aliás, à nova safra de
dramaturgos brasileiros, quase todos muitos jovens, a perfeição é algo secundário.
O importante é o depoimento sobre o tempo em que vivem. Um
testemunho pessoal, autêntico, de gente comprometida com a vida. Como José
Vicente e Antonio Bivar. Leilah tinha pouco mais de 20 anos ao lançar essa sua
primeira peça – a segunda que escreveu. Daí o espanto que causa a vitalidade
de sua obra, sua apreensão de um mundo – o de Mariazinha Mendonça de Morais
– produto simbólico de um tempo falido que urge ser transformado. Um
pequeno quarto num “pensionato de moças finas e honestas”; fitas e
rendinhas nos móveis; balões; bonecas, flores artificiais; um aparelho de
televisão num carrilhão, e flores, muitas flores, tudo bem organizado,
arrumado, grotesco – “Aqui jaz Mariazinha Mendonça de Morais”. Mariazinha
se prepara para as 8 horas diárias de sono, “ideal para conservar a pele
sempre jovem e descansada”; Mariazinha conversa com seus objetos, seus mortos;
Mariazinha recorda seu passado, Mariazinha se apresenta. Mariazinha
tem uma preocupação – acha que cresceu e que não cabe mais dentro das
coisas em que cabia quando era pequena – mas continua tentando caber;
Mariazinha era uma criança prendada; Mariazinha esperou o seu príncipe
encantado – alto, forte, moreno de olhos verdes, trabalhador, honesto; hoje,
Mariazinha se considera uma moça “esclarecida”. Ela não acredita, por
exemplo, num Deus barbudo – “Deus é uma luz, Deus é uma luz fosforescente
e infinita”. É uma mulher que andou sempre com rumo certo. Mariazinha acha
que é feliz, que não está sozinha, tem muitos colegas, muitos amigos, vive
numa grande cidade, cercada de milhões de pessoas, tem “posição”,
“conforto”, “segurança”... Mariazinha é uma moça prendada. Pra que? De
repente surge um estranho, um homem que se apresenta como um ladrão em dia de
folga, falando coisas que Mariazinha não entende. Ele também não entende
Mariazinha, mas se pretende modificá-la. Ele propõe que amanhã será um
“Dia Branco”, Mariazinha vai faltar ao emprego, não vai fazer nada do que
tinha previsto fazer. Mas Mariazinha não pode faltar ao emprego, ter o ponto
cortado – há cinco anos ela paga um apartamento que vai lhe dar segurança na
velhice, apartamento que está quase pago, apartamento sonhado há muito, que
será pintado de branco, terá muitas flores... E há as prestações do
Mappin... Mariazinha não o aceita mais do que ele a aceita, mas o homem a
confunde, a envolve. Ele acha que está tudo errado, portanto, “a gente pode
sair inventando que já é bom, mas daí tem que ver do outro jeito, do jeito
certo”. Mas que jeito é esse, ele não sabe – “se eu soubesse não estava
aqui”. Mariazinha,
morto-vivo, ainda não entregou completamente à morte e a pequena chama de vida
que ainda sopra é o seu elo de ligação com o estranho – remotamente
Mariazinha desejaria ver esta chama brilhar mais intensamente. E é esta chama
que permite o jogo. Condutor,
o homem dá as cartas, dirige as jogadas. E põe em leilão valores de
Mariazinha. Violando-a, leva-a à descoberta da morte como única saída.
Proposta a desordem como preâmbulo. (...) Unidos
– numa mesma entrega, a fantasia os envolve e eleva – afinal, Mariazinha
sempre precisou de mentiras em que pudesse acreditar. Mas a mentira não se
sustenta e Mariazinha volta à realidade, onde lhe foi mostrada sua miséria,
seu ridículo, onde precisa manter o nome limpo na praça, pagar as prestações
do Mappin, onde ouve uma voz que avisa de que já é tarde e vai acabar perdendo
o ponto... Animal ferido, o desespero é expresso por um grito. O
espetáculo dirigido por Oraci Gemba para a Companhia Dramática Independente
tem seu maior prejuízo numa falha da autora: a falta de economia, os excessos
de falas, o prolongamento dos diversos efeitos dramáticos, prejudicando a
unidade rítmica, a fluência da ação cênica. Ao
estudar o texto, o diretor Gemba sentiu o problema. Efetuou alguns cortes, mas não
ousou o suficiente. Os momentos que se seguem à destruição do cenário,
sobretudo, se estendem de maneira cansativa para o espectador. Mas,
em troca, “Fala Baixo Se Não eu Grito” encontra no diretor Gemba um bom
parceiro para que se estabeleça o acontecimento teatral, proporcionado ao
espectador pelo texto-espetáculo. Inteligente, sensível e criativo, imprimiu
uma visão própria à montagem, compreendendo e explorando as formas, ora
realista, ora fantástica, de que Leilah se serve. Um achado da dupla curitibana
Oraci Gemba-José Carlos de Proença (este cenógrafo de grande expressividade)
é a destruição total do cenário – inclusive as paredes do quarto de
Mariazinha, e o surgimento de um cemitério ao fundo, símbolos do rompimento
total da personagem com as estruturas que edificara num mundo morto. Lala
Schneider defende sua Mariazinha com unhas e dentes e passa à platéia toda a
gama de emoções sentidas por Mariazinha. José Maria Santos atua num outro nível
de interpretação, mais crítico, distanciado do personagem. A visão do
diretor e do ator em relação ao homem é um outro aspecto positivo da
montagem. Pouco definido no texto – um ladrão em dia de folga – no espetáculo
ele é, antes de tudo um marginal dentro da ordem estabelecida, que protesta
contra o status quo mas não tem nenhuma saída a oferecer. Anarquista, destrói;
solitário numa cidade de onze milhões de habitantes, se propõe dialogar, mas
é radical em sua posição intuitiva e não aceita que dele discordem. Sua opção
marginal ladrão hippie, etc. – não interessa muito, mas sim a gratuidade da
posição. A presença da Companhia Dramática Independente é positivamente marcante nesta temporada. Merece o sucesso que está obtendo. |
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