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JOSÉ MARIA SANTOS

IMPRENSA
CHAPETUBA NÃO É FUTEBOL
Jairo Regis

Perfeitamente integrada nas tendências e intenções inauguradas no Brasil pelo Teatro de Arena (peças de conteúdo social e dialético) “Chapetuba Futebol Clube”, de Oduvaldo Viana Filho, foi maltratada pelo crítico René Dotti, em LADP, domingo passado.

René Dotti não se capacitou, como de resto o diretor Glauco Sá Brito e os atores, dos fundamentos e implicações necessários à natureza e fins de CFC que 1) procura a naturalidade didática para expor o problema de classes; 2) critica a sociedade capitalista com os seus meios de dominação classista; e 3) valoriza ação prática como definição do homem.

René achou que a peça é sobre futebol, quando o esporte é apenas o fundo em que se colocam os problemas. Poderia ser a sapataria Clark, por exemplo. O objeto é a sociedade capitalista.

A Superestrutura se automatiza e pressiona a infraestrutura, de que é originária (poder econômico pressionando o proletariado): a Federação possui regulamentos (leis da sociedade capitalista) para o acesso à divisão principal e Chapetuba (proletário) tem todas as chances de vencer. Todavia, o Saboeiro é de uma região mais rica e, como tal, pode oferecer rendas mais elevadas (vantagem e poderia econômico, expressado pelo personagem Benigo). Por isso, a Federação quer Saboeiro e não Chapetuba.

Saboeiro (poder econômico) precisa ganhar de qualquer maneira; tenta quebrar a unidade de Chapetuba (proletário) subornando um dos jogadores (trabalhador); precisa garantir-se da vitória e compra o juiz (Justiça); e ganha. Tinha que ganhar, devido ao enfraquecimento dos jogadores (classe operária).

Paralelamente, a política local serve aos interesses do poder econômico (Saboeiro e Federação) com seus pequenos interesses (inclusão de Paulinho no jogo, para que o pai pagasse a irradiação que diria o “lazeira” era o melhor homem em campo) revelando a interdependência dos grupos econômicos.

Não há dúvida que o sentido socialista da peça claudica na caracterização do personagem Durval, dando-lhe valores acima do esperado. Por outro lado não poderia deixar de fixar-se na proposição ética de tornar Cafuné o autêntico trabalhador, vítima preferida pela Justiça (expulsão de campo). Ademais, Cafuné revela na sua timidez a vigilância contra o Poder Econômico e Político (Benigno e Pascoal) preferindo socorrer-se mais até dos seus elementos de defesa (barba e sortilégios) para ajudar a classe do que a aceitar as ajudas, sempre duvidosas.

O que desgosta é saber que diretor, atores e crítico não se adequaram, em regra, às implicações e problemas da peça, deixando de sentir a dura, porém, simbologia de Oduvaldo Viana Filho.

 
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