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Coluna ou Seção: Tablóide Página: 4 Data : 19/4/1977 No
sofisticado teatro profissional americano "Exercício" corresponde a
um prévio treino, geralmente desenvolvido entre dois atores (rizes), antes de
iniciar o ensaio. Corresponde a um aquecimento de músculos, antes de começar a
corrida artística de um simples exercício teatral para desenvolver uma das
mais inquietantes peças contemporâneas, capaz de, 8 anos após sua primeira
montagem profissional no Brasil (Glaude Rocha e Rubens de Falco, sob direção
do cearense B. Paiva), ter duas remontagens, estreadas quase que
simultaneamente: no Rio (Teatro Glória), com Gracindo Júnior e Marília Pera,
em Curitiba (auditório Salvador de Ferrante), com José Maria Santos e Lala
Schneider. Se a montagem carioca procurou "nacionalizar" o ambiente e
ação, a encenação de Eddy Antônio Franciosi manteve-se fiel ao texto: o
ator e a atriz são americanos, vivem uma realidade americana. "Seria falso
tentar o contrário", diz Francisco, o diretor. Estreado
na quarta-feira, "O Exercício" começa a atrair um público em
escalada. Não se trata de uma comédia fácil e digestiva como "Lá"
ou "Marido, Matriz ou Filial" de Sérgio Jockyman, ou o vanguardismo
hermético dos textos de Manoel Carlos Karam ("Fulano de Tal",
"Doce Primavera"), que Zé Maria, generosamente, encenou em bases
profissionais. O Exercício é uma peça que exige do público, no mínimo, uma
freqüência regular ao teatro, para entender a sua própria linguagem. Mas que,
na atual montagem, é a comprovação de que o trabalho consciente, honesto e
esforçado, consegue excelentes resultados. Eddy Antônio Franciosi, jornalista,
assessor da FIEP, autor de cinco peças e direção de outras tantas, tem
desenvolvido trabalhos com Zé Maria e Lala Schneider há quase duas décadas.
Montagens amadoras, semi-profissionais e finalmente, agora um trabalho que
custou mais de 100 horas de ensaios, 32 noites seguidas. Reunidos os três,
discutiram linha por linha do texto de Carlino, cena por cena foi amplamente
imaginada e criticada. Pensou-se em termos de cada diálogo. Lala e Zé Maria
"dormiram" sobre os seus personagens, cansando-se ao máximo para dar
a forma definitiva. Enfim,
fez-se aquilo que se chama, muitas vezes erradamente, de laboratório. Não um
laboratório de experiências vanguardistas, de gritos e espasmos epilépticos,
comuns a certo tipo de (sub) teatro tupiniquim, mas, sim um esforço coordenado
e inteligente. O resultado está no palco do pequeno auditório do Guaíra,
todas as noites: pode-se gostar ou não. O próprio Zé Maria, no final, ao invés
do demagógico apelo de "se gostarem contem aos amigos / se não gostaram não
falem nada", corajosamente conclama todos que emitam suas opiniões
sinceramente. O mais profissional dos homens do teatro paranaense, 20 anos de
digna e honesta carreira, independente e sem papas na língua, Zé vive há pelo
menos 9 anos só de teatro. Um ator identificado, em termos de público, com o
tipo histriônico, é também um intérprete dramático e criativo. Lala
Schneider, que já foi definida por Cláudio Corrêa e Castro como uma das 5
melhores atrizes brasileiras, é uma intérprete segura e profissional. A
soma do trabalho de três esforçados profissionais e um texto difícil resultou
num espetáculo que, se não é alegre ou digestivo, é inquietante, faz o público
pensar e raciocinar (o que, nos dias atuais, é sempre positivo). Fala em
sentimentos, em passado e presente. Um duelo verbal que, como uma grande mola,
faz as emoções se soltarem e retornarem, caminharem para a frente e para trás.
Isto faz do texto de Lewis John Carlino, uma obra fascinante. Eddy
Franciosi, na direção, manteve-se fiel ao autor, mas soube cuidar,
artesanalmente, dos menores detalhes. A iluminação amarela como convém a um
ambiente cinzento de um teatro vazio - onde se passa a ação. O guarda-roupa,
simples e despojado, mas sociologicamente correto: a atriz é elegante, o ator
displicente em seus trajes, refletindo a ação de cada um. E na trilha sonora,
Eddy com sensibilidade musical, escolheu os belos trechos de óperas de Verdi e
Wagner, a lado de curtos (mas definitivos) momentos das trilhas sonoras de
"Amargo Pesadelo" (Dileverance, 1972, de John Boorman) e "Licença
Para Amar até a Meia Noite" (Cinderela Liberty, 73, de Mark Rydel): o
"Duelo de Bandolins" encaixa-se como uma luva num longo monólogo do
ator (José Maria) e "Nice Be Around", de Paul Willians, com o melancólico
solo de harmônica de "Toots" Thielemans, é um tema tão belo, tão
enternecedor, que corta a acidez de certos momentos de "O Exercício",
uma peça inquietante, difícil, mas que mereceu uma digna montagem. Um espetáculo
para ser visto por quem gosta de bom teatro. |
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