|
|
|
|
Coluna ou Seção: Tablóide Página: 3 Data : 12/12/1987 Há
dez dias, José Maria dos Santos foi ao caixa do Hospital da Cruz Vermelha e
deixou um cheque pessoal, no valor de Cz$ 40 mil, pré-datado, para que fosse
liberada a saída de seu colega Irineu Adami que ali estava internado há duas
semanas. -
"Foi a única solução para cobrir a dívida. Dei o cheque, o Irineu foi
para casa e agora estou levantando o dinheiro" - explica Zé Maria. Para
levantar os recursos necessários não só ao pagamento do hospital, mas para
que o caro tratamento de Irineu possa ter seqüência, José Maria volta hoje ao
palco (auditório do CEFET, avenida 7 de Setembro, 3.165, ingressos a Cz$
200,00) para fazer a 259ª encenação de "Zé Maria Procura Sarney Para Se
Coçar" . "Só
... rindo para enfrentar as dificuldades" - comenta. Algumas
pessoas já ajudaram a José Maria a conseguir o dinheiro para pagar as despesas
médicas com seu amigo Irineu Adami. O secretário René Dotti, da Cultura,
autorizou a compra de cem ingressos e o superintendente da Fundação Teatro Guaíra,
advogado Constantino Viaro, intercedeu junto a Clisama para levantar mais Cz$ 10
mil. -
Mas ainda é pouco! Precisamos de mais ajuda - conclama o estimado Zé Maria,
convocando o público a comparecer hoje a noite para aplaudir a encenação
beneficente em favor de Irineu. As
dificuldades enfrentadas por Irineu Adami, 62 anos, gaúcho de Caxias do Sul,
desde 1961 morando em Curitiba, refletem, mais uma vez, a desproteção da
classe artística. Embora funcionário da Fundação Teatro Guaíra há 16 anos
(salário de Cz$ 9 mil), Irineu não tinha condições de enfrentar um
tratamento médico intensivo - incluindo duas delicadas operações. José
Maria, colega de Adami há 25 anos, mais uma vez demonstrou seu bom caráter:
foi ao hospital, exigiu sua transferência para um apartamento individual e,
contando com a atenção do médico Carrilho, viu o velho ator ser bem atendido.
Agora, já em sua casa, em Santa Felicidade, ao lado da esposa Célia e de três
filhos - duas das quais, menores - Irineu recebe tratamento especial.
Preocupa-se, naturalmente, com os custos do medicamento: só nos últimos dias
gastou mais Cz$ 18 mil e, pela medicação exigida, precisará ainda de pelo
menos o triplo desta importância para enfrentar as despesas neste final de ano. José
Maria Santos, 54 anos - que comemora hoje -, paranaense da Lapa, 35 anos de
teatro (desde seus tempos de amador no SESI), mostra-se com razão, pessimista: -
"O que Irineu sofre foi o mesmo que centenas de outros velhos profissionais
dedicados as artes enfrentaram: falta de assistência, inexistência de um
sistema previdenciário honesto!" Ator,
cenotécnico, cenógrafo, autor de comédias - verdadeiro "fac totum",
Irineu já teve dois pavilhões - uma espécie bem característica de espaço
portátil cênico, que no Sul era comum até os anos 60, e dedicou toda sua vida
ao teatro. Nos últimos anos, como funcionário do Guaíra, fez poucas peças
como ator - embora tivesse sido elogiado na encenação de "Doce
Primavera", de Manoel Carlos Karam - que Zé Maria levou ao Rio de Janeiro
e, em abril de 1982, estava no elenco e equipe técnica da comédia "A
Reputação dos Quatro Bicos", de Luís Groff, que inaugurou o Teatro da
Classe. Homem
sem papas na língua e que sempre se destacou em nosso acovardado mundo artístico
como líder nato, José Maria Santos não alimenta esperanças com a política
oficial de cultura. Nos últimos anos sobreviveu com a montagem de monólogos
humorísticos - a partir de março de 1971 com "Lá" de Sérgio
Jockymann (1.480 apresentações) e, nestes últimos dois anos - desde a estréia
em 19 de junho de 1986 - com a sátira "Zé Maria Procura Sarney Para se Coçar".
Admite que os textos desta comédia, satirizando a Nova República, - de autoria
de Valêncio Xavier e Aldo Schmidt precisam uma reciclagem, mas justifica: -Também,
com Sarney e o governo que aí está, não há condições de fazer humor. Só
tragédia. Bem chorosa. Como
milhares (ou trilhões?) de outros brasileiros, Zé quer emigrar. -
Não só quero, como vou! - garante. Para
tanto já esteve duas vezes no Consulado Geral do Canadá, em São Paulo,
tratando da documentação e buscando opções de sobrevivência naquele país.
De princípio, vai tentar fazer um curso ou um estágio. -
Mas se puder, vou ficar por lá. É um país grande e com maiores oportunidades. O
fato de não falar inglês ou francês, não o intimida: -
Afinal sou ator. E para que serve a mímica? De
princípio vai sozinho. Aqui deixa a ex-mulher, cinco filhos, cinco netos
"e muitas namoradas". O custo do dólar também não o faz desanimar.
Parte de um raciocínio simples: -
Entre passar necessidade e raiva com a mediocridade que aqui existe, prefiro
passar só necessidade. Necessidade sem raiva dá
menos fome... |
|