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Em
1957, Zé Maria fundou a Companhia Dramática Independente. São 20 anos de
trabalho que tornam sua carreira uma das mais regulares e longas da história do
teatro no Paraná. Nesses 20 anos, além de ator, ele foi produtor, diretor e
professor de teatro. Procurou entremear um trabalho de cunho mais comercial para
sobreviver, com outro mais profundo, para satisfazer suas necessidades íntimas
como homem e artista. E sua carreira foi crescendo ao longo de centenas de peças,
dos mais variados gêneros, atingindo reconhecimento nacional com a premiação
no Festival de Gramado como ator coadjuvante em “Aleluia, Gretchen”. Zé
Maria conversa hoje com Anexo, mostrando seus pontos de vista, debatendo a situação
do teatro em Curitiba. Esta entrevista é mais um estágio que vem efetivar o
interesse deste caderno em apresentar um apanhado geral dos trambiques por que
passa a arte dramática paranaense. Procuramos apenas apresentar os fatos para,
se não mudar a situação rançosa do teatro por aqui, ao menos despertar em
muita gente a necessidade de mudá-la. Nesses
20 anos, quais as mudanças radicais ocorridas no teatro do Paraná? É
melancólico lembrar isso ao tentar fazer um retrospecto. Sinto uma tristeza
muito grande ao perceber que, apesar do esforço, pouca coisa mudou. Não
aconteceu nada, principalmente em termos de realização. Quando comecei, era
mais apaixonante; não havia nenhum estímulo e a coisa era uma aventura, não
havia também tanto comércio, tanta confusão. Em 62 montei o primeiro espetáculo
do absurdo, porém, de lá para cá não se tentou mais uma linguagem nova. O
pessoal todo se contenta em fazer macaquices, em copiar Rio e São Paulo. A única
mudança é que o tempo passou, a cidade cresceu muito e eu envelheci. Mas
do seu trabalho em 20 anos nada ficou? Evidentemente
que algo ficou. Mas não sinto isso de modo bem palpável. A classe teatral aqui
é medíocre, mesquinha, tremendamente invejosa, antes de qualquer coisa. Querem
apenas se aproveitar de certas circunstâncias. Ninguém se preocupa com um
planejamento, mas apenas em fazer história, em deixar marca. E tudo isso impede
a realização de um trabalho com raiz. É uma classe deformada e deformadora.
Os poderes públicos não exigem nada desse pessoal, mas lhe enchem de subvenções
paternalistas, donde vem o marasmo que atravessamos. Além disso, Curitiba é um
paradoxo: há 30 atores e 28 companhias. Assim, a situação toda é desagradável.
Agora, para não dizer que não aconteceu nada, sem bajulação, a única coisa
realmente válida que vi surgir nesses anos todos, foi o Karam como autor.
Inclusive pretendo comemorar os 20 anos de trabalho com uma peça deste autor
que acho excelente. É uma pena que somente nós, seus amigos, acreditamos nele.
E quando surge alguém assim, com possibilidades, é cercado por uma tremenda
inveja destrutiva em lugar de haver incentivo. E
o Guairão, com todo aquele porte, veio ajudar ou atrapalhar o trabalho de vocês? Todo
mundo já falou e continua falando. Ele é um negócio que hoje em dia não se
faz mais porque não tem cabimento. Foi uma loucura projetar e realizar um
teatro daquele tamanho. Todavia, ele está aí. Em vez de se ficar criticando, o
jeito é encontrar uma saída para haver um melhor aproveitamento, para que um
erro não cause outros mais. É claro que em vez de um, poderíamos ter uns 10
teatros espalhados pelos bairros. Mas ele é uma realidade. Teve poucas coisas
boas, como o projeto Pixinguinha. O Guaíra deveria se prestar a esse tipo de
coisas, com espetáculos populares para atender toda a classe estudantil e o
povo em geral. O Projeto Pixinguinha, apesar de vir da esfera da cultura
oficial, é das coisas mais importantes e a administração do teatro deveria
arrojar-se e realizar espetáculos com essas características. Então, não é o
Guaíra em si que é um mal ou um bem. O negócio é fazer alguma coisa com ele
e se faria uma boa coisa, tenho certeza, se houvesse uma política cultural, um
planejamento, alguma coisa mais segura e definida e não só a zoeira que vemos
sempre. Há
algum tempo você vem levando um trabalho no campo teatral, junto aos alunos da
Escola Técnica. Como você define esta experiência? Essencialmente,
é um trabalho que me gratifica. No profissionalismo luto contra uma série de
coisas, sou obrigado a fazer concessões para sobreviver. Lá não. Não tenho
preocupações com isso. E esse é um dos fatores que me mantém nesse trabalho
para aproveitar de modo mais abrangente os muitos alunos que nos procuram. O
ideal seria uma grande montagem, para dar oportunidade a todos. O que fazemos na
Escola Técnica deveria servir de exemplo para dar oportunidade a todos. O que
fazemos na Escola Técnica deveria servir de exemplo para outros
estabelecimentos de ensino e para os órgãos oficiais. A gente sempre procura
um trabalho sem alardes. A preocupação é pelo fazer. Atingir a meta que são
os 4 mil alunos e suas famílias. Vocês
nunca encontraram barreiras maiores dentro da própria escola, alguma coisa que
impedisse a realização de suas peças? Olha, no início era praticamente impossível fazer um espetáculo
e chegar ao seu final. E isso acontecia até com os grupos profissionais que às
vezes se apresentavam por lá. O comportamento habitual dos alunos era terrível.
Quando iniciamos, sofremos tudo isso e sentimos todavia que ali estava um
tremendo potencial e antes de qualquer coisa seria necessário conquistar a platéia.
Uma platéia tão grande, equiparada ou até maior que aquela habitual na cidade
de Curitiba. Mas precisaríamos despertar seu interesse, levando trabalhos dos
próprios alunos, fazendo palestras, antes e depois dos espetáculos. Teve
oportunidade em que chegamos a interromper a peça para começar a conversar com
a platéia, explicar o que estava ocorrendo no palco. Sofremos durante 2 anos,
nesse trabalho de verdadeira catequese. Hoje, há a satisfação, conseguimos
dobrar os índios. E pelo menos uns 50% comparecem sempre em nossas promoções
e isso é tremendamente compensador. Está
havendo uma boa movimentação em Curitiba para se criar por aqui uma subsede da
FIPAT. Como você vê esse processo todo? Nos
festivais onde foi iniciada essa movimentação, participei sempre mais como
espectador. Para sentir a coisa. Tudo é muito importante, principalmente quando
a característica principal é a descentralização teatral. E isso deve
continuar, porque é mais importante se fazer teatro no interior do que batalhar
aqui por um público que muitas vezes não está a fim de ver propostas novas. O
público daqui está interessado em ver os grandes cartazes da televisão.
Agora, para falar melhor desse movimento a respeito da FIPAT, precisaria de
conhecimentos mais profundos, mais de perto, o que infelizmente não tenho. Mas
pude sentir uma preocupação muito grande do pessoal em se unir, ficar coeso,
preocupação com a calamidade do teatro no Paraná, e isso é sem dúvidas
excelente, principalmente quando esse mesmo pessoal está interessado em fazer
teatro longe do paternalismo castrador das subvenções. Em
sua carreira, seja individualmente, seja em grupo, você já recebeu vários prêmios.
Você é um artista que valoriza esse tipo de coisa, tem interesse em premiações? Para
falar a verdade, não vejo nenhuma importância em qualquer tipo de premiação.
Sei lá se isso é questão de temperamento. Quando optei pela carreira, tive
interesse no trabalho que me empolga e por nada mais. Agora, se eu fosse um cara
que estivesse a fim desses prêmios, é claro que eles me deixariam felicíssimo.
Todavia, não posso negar que o prêmio às vezes gratifica um pouco,
principalmente quando não se espera. E acho bom alertar que no Brasil e prêmio
em si nunca tem importância, a sua finalidade é sempre outra. Eu pergunto:
qual a finalidade de um prêmio? Além
do teatro, você também tem feito filmes. É um trabalho de peso, que coloca
alguma coisa em sua carreira, ou é apenas um modo de sobreviver? Até
agora fiz 3 filmes: “Aleluia, Gretchen”, de Silvio Bach, “A Visita do
Velho Senhor”, de Candeias e terminamos há pouco uma comédia, “Revolução
no Amor”. E tudo isso forma um conjunto muito positivo, principalmente porque
estou interessado em produzir cinema a partir do próximo ano. E cada trabalho
desse é uma oportunidade de aprendizado. Além do trabalho específico de ator,
me envolvo totalmente com as outras coisas para sentir o problema do cinema. A
bem dizer, fazendo cinema, fui quase um operário, porque vi, experimentei o
osso duro de uma filmagem. Isso tudo, principalmente vivi no último filme
citado. Como
você encara, especificamente no teatro, o trabalho de vanguarda? É
um trabalho válido, desde que dá uma nova possibilidade ao público. Porém,
é ridículo fazer teatro de vanguarda e querer atingir a burguesia, a elite.
Todo tipo de experiência é válido, mas cada grupo ao montar algo, deve saber
para quem mostrar. Da maneira como isso tem sido feito por aqui, não dá.
Porque tanto Curitiba, como no Brasil de um modo geral, as coisas acontecem como
folclore, como monstro pré-histórico, sem objetivo algum para atingir. Outro
lado que posso divisar no teatro de vanguarda e que acho positivo, é o trabalho
em termos de pesquisa. Para você ter uma idéia, todos sabiam que Ionesco e
Brecht tinham sido os criadores do teatro do absurdo. Mas, há pouco tempo,
descobrindo-se as peças de Qorpo Santo, isso fez a cara de todo mundo cair,
porque ele é tão bom quanto aqueles autores e pode ser considerado o precursor
do absurdo. Agora, por uma questão de honestidade, o público deve sempre estar
muito informado acerca do espetáculo que irá assistir, deve saber de antemão
qual é a proposta do grupo. Temos
ouvido de um ou outro a preocupação em fazer um teatro calcado na realidade
daqui, no que o homem curitibano é e vive. você também é movido por isso? Sempre
tenho dito que é isso que deve acontecer. Com um grupo de teatro ninguém tem
jeito de concorrer com Rio e São Paulo e então só se monta por aqui depois de
alguma coisa surgia por lá. Temos que produzir aqui, enquanto não sucede isso,
continuaremos copiando Rio e São Paulo. E seria ideal fazer um teatro daqui,
para o pessoal daqui e para exportar. O Brasil tem que deixar de ser Rio e São
Paulo. Essa briga deve começar. Esse é o caminho. Das viagens que fiz por aí,
sempre percebi que as pessoas não admitem que existe alguma coisa fora daquelas
duas capitais. Quando fomos com “Doce Primavera” para o Rio, eles viam o
espetáculo com descrença, não aceitando que em outros lugares também possa
existir autor, ator e diretor. E ao levar aquela peça pra fora, tive a intenção
justamente de mostrar alguma coisa daqui, tudo realizado aqui. Naquela época, o
espetáculo foi classificado como o 6º mais importante da temporada carioca.
Então, está na hora de acabar com essa idiotice de copiar os grandes centros.
Se ainda não temos condições ideais para se fazer algo inteiramente
curitibano, devemos lutar para criar essas condições. Mas, francamente, acho
que essas condições existem, e a classe teatral é que anda desunida, cega, não
vê o que está a frente de seu nariz. Você
e um outro pessoal ligado ao teatro estão criando uma Comissão que visa
estudar a problemática geral do teatro no Paraná. O que é e como vai
funcionar esta Comissão? Ela
foi criada pela necessidade de acabar com uma situação estranha aqui, onde
ninguém sabe como está nem como fica. E para acabar também com todas essas
intrigas idiotas que existem no meio teatral. Vamos fazer um levantamento
detalhado de tudo. Tudo está mais ou menos dividido em itens: sobre as subvenções
enviadas ao Paraná, sempre exorbitantes; já conseguimos do Orlando Miranda a
promessa de uma relação de todo o dinheiro destinado ao Paraná, o Estado mais
privilegiado em matéria de subvenções; não sabemos qual o benefício desse
dinheiro todo, como foi aplicado, se houve algum retorno; outro item é sobre os
auditórios: não se sabe quantos existem, quais as suas condições técnicas;
outro é sobre atores, técnicos para os grupos e sei que isso vai desagradar
muita gente... Depois de todo esse levantamento pronto, iremos publicá-lo. E
faremos um plano cultural para ser executado no Paraná em termos de teatro
amador e profissional. Uma coisa que nos preocupa muito e que é uma preocupação
da Comissão, é a razão porque tantos elementos saem daqui para trabalhar
noutra praça, como aconteceu com Silvio Bach. Ninguém percebe o vácuo que uma
perda desta provoca em Curitiba. E todos ainda acabam achando bonitinho alguém
sair daqui e atingir bom sucesso lá fora, quando deveria é trabalhar aqui,
elevar o padrão para que todos tenham em Curitiba as condições que encontram
lá fora. Vamos estudar o que força os bons elementos a saírem de Curitiba.
Eles precisam ficar aqui, precisamos criar um todo cultural firme nesta cidade
para acabar com essa evasão de talentos. O sujeito, quando começa a criar
nome, se manda e todos nós perdemos muito com isso. E
no momento, além desses trabalhos todos, qual a peça que a sua Companhia está
apresentando? Estamos com uma peça do Mário Brasini,
“Alguém Falou de Amor”. Já fizemos 10 cidades do interior. Ela só estréia
aqui no próximo ano. E uma comédia muito divertida e inteligente. O autor
soube manejar muito bem os diálogos e está funcionando muito bem. E se levamos
primeiramente a outras cidades, em lugar de estrear por aqui, fizemos isso por
questões de garantia financeira. Para você ter uma idéia do que ocorre, ano
passado, com “Doce Primavera”, depois de 35 espetáculos, não faturamos nem
60 mil. Todavia, nas 3 primeiras cidades em que levamos a mesma peça, Toledo, Céu
Azul e Matelândia, atingimos a cifra de 32 mil cruzeiros, a 10 o ingresso. Além
disso, tínhamos todas as despesas pagas. Então, vi que não há nenhuma
vantagem em fazer espetáculos por aqui. Realmente, se eu pudesse, esqueceria
Curitiba e faria teatro só em outras cidades, onde as condições são bem
melhores. E esse tipo de trabalho, levar primeiramente ao interior e só depois
estrear na Capital, é o nosso esquema. |
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