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FS:
Zé Maria, ninguém mais agüenta, Curitiba não agüenta mais, o Paraná não
agüenta mais, ninguém mais tem saco para assistir o “Lá”. Fazem nove anos
que você está fazendo “Lá” no Paraná, “Lá” em Curitiba, “Lá”
em São Paulo, “Lá” no Brasil. Como é que você tem coragem de voltar em
pleno ano de 1980, inclusive junto com a abertura de Figueiredo. Você acha que
“Lá” resiste à abertura? Zé
Maria: Eu acho que com a abertura do Figueiredo não resiste, porque a abertura
dele eu não conheço. Diz-se que Curitiba não agüenta. Eu acho que agüenta,
o Brasil agüenta. O Brasil está agüentando coisa pior que isso. Então, um País
que agüenta tanta coisa não vai agüentar o “Lá”? Em “Lá” eu não faço
nada mais do que o governo está fazendo. Eu sento na privada e faço aquilo que
eles estão fazendo com o País! FS:
Você comprou quantos sítios com o “Lá”? Zé
Maria: Eu tenho vários sítios e agora, com esta temporada de Curitiba eu quero
comprar um em Camboriú para ficar junto com os argentinos... FS:
E o helicóptero que você ia comprar? Em 72 você falou que ia comprar um...
Deu para comprá-lo? Zé
Maria: Não. O helicóptero eu comprei com a peça do Karam que eu montei,
“Fulano de Tal”. Inclusive o sítio que eu tenho na Lapa comprei com a peça
do Karam. Muita gente diz que a peça do Karam não dá dinheiro. Claro que dá. FS:
Quantos curitibanos já viram quantas vezes o “Lá”? Zé
Maria: Estatística eu não fiz, mas fiz uma de quantos metros de papel higiênico
eu gastei durante os nove anos que estou apresentando a peça. Isto porque eu
gasto oito rolos por noite. Oito rolos com cinqüenta metros cada dão
quatrocentos metros. Quatrocentos metros em mil dão quatrocentos mil metros de
papel higiênico. FS:
Não há jeito de racionalizar a coisa e reaproveitar o papel de uma apresentação
para outra? Zé
Maria: Não é o fator papel higiênico. É o fator m... mesmo, porque,
inclusive, está provado que mexer com m... dá dinheiro. FS:
Nessas sucessivas reapresentações do “Lá”, a peça foi adaptada,
atualizada em algum aspecto? Zé
Maria: Eu acho que só se justifica essa remontagem devido exatamente a essa
mexida que foi dada no texto. Quando eu montei em 71, o texto tinha quatorze
corte da Censura. Hoje, o texto veio sem cortes, além do que a gente já
colocou em cima do texto. FS: Atualização compulsória... Zé
Maria: Exatamente, foi uma atualização compulsória. Aliás, esses cortes não
deveriam existir. Mas como eles existiram, e hoje veio sem cortes a gente
aproveitou. FS: Os cortes eram palavrões?
O que eram esses cortes? Zé
Maria: Por incrível que pareça, a peça quase não tem palavrão. Eram cortes
mais de cunho político, falando sobre multinacional. A fechadura da porta da
privada era de ferro e, consequentemente, fechadura importada dos Estados
Unidos. Os banheiros dos Estados Unidos são, principalmente nos grandes edifícios,
de porta de ferro ou de aço – evitam o problema de umidade. Não se fabricava
no Brasil porta de ferro há anos atrás. Então, todas as portas de banheiros
nesses prédios antigos eram importadas dos Estados Unidos. Com isso, o Jochyman
dá um piche em cima da indústria, da multinacional, prejudicando a nacional e
ainda trancando o cara na privada. São essas coisas que foram cortadas, como um
pau em cima da polícia, quando o cara diz que a polícia foi feita para cassar
carteira. Numa ocasião, ele deu um cartão de crédito ao policial e este olhou
e disse: “Tudo bem, doutor! Tá tudo legal”. Fala dos bombeiros, que só
aparecem quando já queimou tudo. São coisas assim. O palavrão industrializado
no teatro e a censura no Brasil de 64 para cá não foi uma censura moral, mas
censura política. Por isso a censura se tornou imoral. Ela se preocupava mais
com a polícia e deixava a imoralidade solta. FS:
Zé, parece que você é dono da peça “Lá”, pai da peça. Como é que você
explica? Você comprou os direitos? E por que monólogo? Zé
Maria: Bem, a vantagem de se fazer monólogo, com todo o respeito que eu tenho
pelos colegas atores, eu monto monólogo porque prefiro estar só do que mal
acompanhado! O fato é que no Brasil existem atores que têm condições de
carregar um monólogo nas costas. E eu me considero um dos cinco atores que têm
condições e pique para levar um monólogo nas costas. FS:
Quantas horas tem a peça? Zé
Maria: É uma hora e meia. Cronometrado no relógio, é uma gargalhada de minuto
em minuto. FS:
Uma resposta você não deu: você é dono da peça? Zé
Maria: Eu sou o único ator atualmente no Brasil que está fazendo a peça. É
usucapião. O Jockyman, inclusive, é um cara meio chato nesse sentido. E eu
acho que o aturo não deve deixar todo mundo meter a mão nos seus textos. Então,
só eu estou fazendo “Lá” no Brasil, atualmente, e espero que ninguém mais
se meta a fazê-la. Eu pago direito autoral para o Jockyman. Imagine, se eu
consigo ganhar algum dinheiro com “Lá”, e ele, então? FS:
Qual é a importância que a privada tem em sua vida? Privada para você deve
ser uma coisa importantíssima... Zé
Maria: Ela é tão importante que eu estou querendo mandar fazer uma privada de
ouro maciço para colocar em cima de minha casa, bem em frente do portão. A
gente vive num mundo tão cretino, tão hipócrita que se chegar a (...) numa
privada de ouro maciço vira moda. Agora, numa privada de louça de Campo
Largo... Mas numa de ouro maciço, ah, meu filho, haverá até público para
assistir a gente (...) numa privada de ouro maciço. FS:
Já que se está abordando a privada, você disse que prefere trabalhar só do
que mal acompanhado... Por que isso? Zé
Maria: Isso, naturalmente, foi uma brincadeira que eu fiz. Evidentemente, eu
prefiro trabalhar com outros atores. Mas devido às circunstâncias do teatro
brasileiro e de eu também ser um ator que tem condições técnicas de fazer
bem o monólogo, segurar o público, então, enquanto eu tenho esse pique, esse
preparo físico não vejo razão de não fazer. E enquanto aparecer monólogo
tipo “Lá” e “Muro de Arrimo” eu vou continuar fazendo. FS:
E a televisão... Zé
Maria: E acho que a televisão teve uma grande fase, aquela antes do vídeo-tape,
quando a televisão era feita de coisas nossas. O que não é importado hoje em
dia? E ainda demos azar de sermos descobertos pelos portugueses! A televisão
teve uma fase formidável que era aquela fase bem brasileira, bem miserável
mesmo, bem terra-terra. Hoje, não se vê o que é a televisão. A televisão,
hoje, é o retrato do colonialismo norte-americano que está aí, pois 80, 90
por cento são de programação americana, só se fala em Estados Unidos, o que
acontece lá. Coisa brasileira mesmo na televisão não se vê nada. FS:
De nacional só tem a vítima, o telespectador... Zé
Maria: Exatamente. Para vencer o Ibope na televisão eu acho que a única
maneira de vencer é voltar a fazer a televisão miserável que se fazia. Tanto
que a Tupi começou a fazer um jornal na base de improvisação, desmistificando
aqueles apresentadores bonitões, galãs e tal e conseguiu competir até, em
termos, com a Globo. FS:
Zé, é verdade que a Rede Globo andou convidando-o para fazer um “Caso
Especial” com o “Lá”? Zé
Maria: A gente deve dar um tempo, tem de aguardar. Faturar mais um pouco a peça.
Promovendo de vez eu vou queimar o público. FS: “Lá” volta aonde? No
Guairinha? Por que não no Teatro de Bolso que, dizem, é um mitório... Que
acha do Teatro de Bolso? Zé
Maria: O Teatro de Bolso como cenário para o “Lá” seria ótimo... Uma
privada, né? Acho que ele serviria para cenário. Mas não haveria lugar para o
espectador. Bem, esclarecendo, a peça vai ser levada no Teatro Guaíra, indo até
dia 15. Completando porque todo mundo fica dizendo “por que o ‘Lá’?”.
Isso é falta de informação. Segundo a história da cultura universal, todos
os clássicos são refeitos de tempos em tempos. E “Lá” eu considero um clássico,
hoje já é um clássico. Não se reprisa um fracasso, não é verdade? Uma peça
que não teve público não pode ser reprisada. FS:
Os clássicos são obras que resistem não só a uma análise teatral ou literária
mas também a uma análise científica. E “Lá” não resiste a uma análise
literária ou científica. Zé
Maria: Concordo. Ele pode não resistir a uma análise literária e científica,
mas ele resiste a uma análise fisiológica... FS:
As comédias de Molière resistem a essas análises e estão aí. Eu duvido que
“Lá” resista tanto tempo quanto resiste uma peça de Molière. Acontece o
seguinte: você já fez coisas boas com os lucros do “Lá”. Conta isso como
é que foi... Zé
Maria: Se eu tivesse nascido na França, hoje eu seria um nome mundial, eu seria
um Ibope mundial, eu seria um Alain Delon ou então Richard burton. Mas
infelizmente eu nasci em Curitiba. Tem essa mania de brasileiro para com seus
grandes artistas. Procópio Ferreira, por exemplo, que foi um homem da maior
importância, mas ele teve a infelicidade de ter nascido no Brasil. Paschoal
Carlos Magno também teve a infelicidade de nascer no Brasil. Ele nasceu e
morreu na m... do Brasil! Se ele tivesse nascido na França ou na Inglaterra,
ele não seria tratado com esse despeito com que foi tratado. Sobre os lucros
com o “Lá” eu cheguei a fazer algumas coisas boas, cheguei a montar duas peças
do Karam, num momento em que nem ele acreditava nos seus textos. Mas como o
lucro do “Lá” foi bastante, pensei em montar uma peça do meu amigo Karam.
Montei duas peças dele. E espero que com esta temporada eu consiga dinheiro
para montar uma terceira. FS:
Conte como é que foi esse final do espetáculo “É”, sexta-feira, no Guaíra...
Uma peça em que é possível discutir... Zé
Maria: O Karam acha o “É” um grande texto. Eu acho um saco aquele texto. E
não tem o que discutir. O “É” para mim é uma comediota, que não diz
nada, é uma mistura... Inclusive o Millôr para mim é um cara meio frustrado
porque ele não consegue escrever para a televisão, nem falar para o povo. Então,
ele fica naquela base do Vinícius de Morais. Voltando ao “É”, eu
sinceramente achei um saco. No dia em que aparecer um hipopótamo aí e cantar,
vai para a Globo... vai ter de ir pro Rio de Janeiro. Lá monta, vem para cá e
o paranaense vai bater palma... FS:
Outro problema: o “É” é um saco, a encenação é um saco, Paulo José é
um mau diretor de teatro. Você mesmo, se dirigisse o “É” com os alunos da
escola (de Educação Tecnológica), você faria melhor... Zé
Maria: Não vou pedir desculpas, mas não tenho culpa de eu ter talento como
ator e ter conseguido sucesso aqui no Paraná sem sair daqui. E não vou sair
daqui. Não tenho culpa se dizem que o “Lá” é isto, “Lá” é aquilo,
“Lá” não presta. Isso é outro problema. Respeito a opinião dos outros.
Mas se quiserem comprovar a importância da peça, eu vou conferir os borderôs
no final da temporada e tudo bem. Então, eu não tenho culpa de levar tudo para
o teatro, não tenho culpa de fazer sucesso no teatro, não tenho culpa –
deixa eu dar uma de demagogo – de ter talento e não tenho culpa também de não
ter saído de Curitiba. Não vou sair, vou ficar aqui, prefiro ficar aqui. FS:
Zé, o que leva uma pessoa, no final de um espetáculo no Guairão elogiar o
governador? Zé
Maria: Inclusive eu faço essa pergunta, mas dirigida às pessoas dos órgãos
estatais do Paraná. eu tenho amizade com o governador Ney Braga, inclusive.
Agora, acho incrível uma coisa: todo artista que vem do Rio e São Paulo chega
aqui e diz que o Ney é o pai do artista. Eu acho que o Ney está sendo pai de
filhos alheios e está deixando de ser pai dos filhos dele, que são os artistas
do Paraná. eu fiz uma estatística ano passado. De dez espetáculos paranaenses
que estrearam no Guaíra, eu não vi uma autoridade, nenhum representante do
governo, estadual ou municipal. Em contra-partida, até porcarias que estréiam
aqui, do Rio ou São Paulo, levam batalhões de pessoas do governo. Para mim não
interessa a presença dessas pessoas no teatro, o que me interessa é o público.
Isso é antigo não só no Paraná, mas em todo o Brasil. Tem uma estória do
Canet, quando era governador do Estado – ele parece ter uma ojerisa (sic) pelo teatro, de cultura, ele parece ter sido daqueles tipos de
público de cabresto – quando da inauguração do grande auditório, levaram
“Telêmaco”, uma coisa horrorosa que montaram aí sobre um texto do
ex-candidato a senador (Túlio Vargas). Essa eu presenciei no Guaíra. Estava lá
o governador assistindo, e na peça apareciam umas indizinhas até interessantes
porque eram da alta sociedade todas pintadinhas, bonitinhas, coxudinhas. Aí, no
intervalo, o assessor, um dos puxa-sacos do Canet – ele tinha um cordão de
puxa-sacos – perguntou ao Canet no intervalo: “O que o senhor está achando,
governador?” Resposta de Canet: “É, as indiainhas são interessantes. Vai
aparecer mais no segundo ato? Se aparecer eu vou ficar, caso contrário acho que
eu vou embora”. FS:
Uma coisa preocupa: várias pessoas naturalmente vão merecer estátuas nesta
cidade. Mil estátuas! Agora, há uma preocupação com você, Zé, montando,
remontando o “Lá”, você, então, vai ter uma estátua sentado numa
privada, perpetuado para a história. Você não acha chato você na Praça
Ouvidor Pardinho...? Zé
Maria: Isso é uma mistura. Já se imaginou? Tem cara vivo aí que faz estátua.
E aquela história do reitor que fez uma estátua, destruíram e ele ficou
louco, está procurando a estátua até hoje... Então, um contraste bom seria
uma estátua minha sentado numa privada e outra do Figueiredo montado num
cavalo. Eu acho que seria um contraste interessante! FS:
Dizem por aí que todo dia, antes de você entrar em cena, fazendo o “Lá”,
você se tranca no banheiro às 8h15min, 9 horas começa a peça, e fica
decorando o texto para entrar em cena... Zé
Maria: Não. houve um pequeno equívoco no problema do folclore, que não é o
caso de decorar texto, porque o texto eu sei de cor. Mas como eu sou um ator
muito responsável, e aí é que eu acredito que esteja o segredo dessa peça,
às 6 horas da tarde eu já estou no teatro. Me tranco no banheiro, não para
decorar o texto, mas para fazer laboratório... FS:
Exame de fezes, hein...? Zé
Maria: Todo ator faz laboratório, elaboração... Para pesquisar o personagem,
sentir o personagem, para quando entrar em cena já estar aquecido. Realmente,
eu chego ao teatro às 6 horas da tarde, me tranco no banheiro e fico até 15
para às 9. FS:
No dia em que você montar “Hamlet”, por exemplo, vai fazer laboratório
onde? Zé
Maria: Bem, eu vou no cemitério! FS:
Você já fez alguma cena de sexo, com a atriz pelada na sua frente? Zé
Maria: Não! FS:
Zé Maria, você fez uma cena de sexo em cinema, mas uma cena homossexual. Foi
em “Aleluia Gretchen”, quando pega na mão do guri... Zé
Maria: Peguei na mão, sim. Só na mão, isso na frente da câmera. Depois que
terminou a cena o romance continuou... FS: Zé, quantos filhos você
tem? Zé
Maria: Eu tenho cinco, em casa... Agora, por aí não sei quantos! FS:
A Ruth sabe disso? Zé
Maria: Sabe... FS:
Zé, você vem durante muitos anos fazendo peças brasileiras, já fez peças
estrangeiras, já foi ator de Pirandelo. Você teve um projeto recente de fazer
uma peça estrangeira – “A Noite dos Campeões” – Explique... Zé
Maria: Eu não cheguei a pensar em fazer a peça “A Noite dos Campeões”. Não
sou contra a literatura universal no teatro, mas acho que o teatro estrangeiro,
principalmente o americano, não tem nada a ver conosco, não tem nada a ver com
a nossa realidade. E a prova disso foi um texto americano que eu montei
_”Exercício” _ que dentro de um esquema de carpintaria teatral, de jogo
dramático, ele é perfeito, mas não tem nada a ver com a nossa realidade. Mas
cai no erro de ter feito “Exercício”, cai no erro de montar “A Noite dos
Campeões”, mas acho que tudo é uma questão de reflexão. Hoje, eu não
faria por melhor que fosse o texto estrangeiro. Assim, eu prefiro muito mais uma
comédia com texto do Karam do que uma comédia de Molière, isso não é
demagogia, não. FS: Você já fez uma peça, Zé,
em que você era ao mesmo tempo o personagem e o Zé Maria também. O que foi
que não deu certo naquela peça? Zé
Maria: Eu acho que deu certo. O que eu faço como ator sempre tem cinquenta por
cento de mim e cinquenta por cento do ator. Eu acho que o ator sempre deve dar
alguma coisa de si. O ator jamais vai deixar de ser ele em cena. Eu acho que ele
tem sempre de ser ele. Essa história de que o ator tem de mudar... Não há
condições de o cara fazer essa
metamorfose. O que ele tem que fazer passar a verdade que ele diz em cena, isso
sim. No momento em que o que ele diz passa a ser uma verdade e o espectador
acredita, o ator passa a mudar. Não existe essa mudança metamorfósica, isso
é uma besteira. O importante é a verdade, o conteúdo do que ele diz. FS:
O Retamozzo fez uma afirmação de a arte é uma sacanagem, sem organização, não
da lucro. Zé
Maria: Eu acho que não é isso. O problema de dar certo ou não é a questão
de se acreditar naquilo que se faz. E não é também questão de lucro. É
questão de se acreditar naquilo que se faz. Tem o seguinte: eu não me
considero um artista marginal, nunca me considerei e nunca vou me considerar. E
não é questão de dar certo, é questão de se acreditar no que se faz. Eu
acredito muito naquilo que eu faço. Assim, o teatro foi para mim uma opção de
vida. Se o cara não tiver o mínimo de organização, hoje, dentro desse
sistema diabólico que esta aí, esse sistema de massificação do ser humano...
Se o cara não se organizar... Ele tem de se organizar até para entrar num
banheiro, até para tomar uma refeição. Então, o elemento tem de estar com o
pé no chão. Caso contrário, ele dança mesmo...
FS: Como é que você sente
sua criatividade junto ao teatro amador e qual a sua influência que esse teatro
amador que você faz, tem do teatro profissional? Zé
Maria: Afirmou-se que a peça ‘’Lá’’ não se renova, não acrescenta
nada. Não concordo. Acho que não estou fazendo a peça simplesmente no sentido
comercial. Não porque eu não
estou precisando de dinheiro. Minha situação está boa, apesar da crise e da
ameaça de recessão. Eu estou fazendo ‘’Lá’’ não pelo fato de eu
sentir que há uma renovação de público, praticamente uma geração que não
viu a peça e que tem possibilidade de assistir, mas pelo fato de poder fazer um
novo espetáculo. Não é uma remontagem, é um novo espetáculo, onde tudo foi
refeito, desde cenário, sonoplastia, a peça foi reescrita. Eu, inclusive,
estou ensaiando esse espetáculo. Então, é um novo espetáculo, não é uma
montagem. Por isso, eu acho uma burrice do pessoal de teatro não repetir um
sucesso. ’’Calabar’’, de Chico Buarque de Hollanda, com toda aquela onda
de proibição, estreou em São Paulo e está mal. Eu acho lamentável que
aconteça isso. O fato de eu estar fazendo o ‘’Lá’’ novamente, não é
que seja o lado comercial. É comercial, é evidente, mas é um fator
profissional, ele me da o exercício como ator. Ele é um texto que inclusive
corre o risco de ser interditado, ser proibido pelas colocações políticas que
a peça tem, no momento FS:
Brecht colocava suas piadas como um recurso dialético; ele envolvia o
espectador com uma dose de humor político. Sabe-se de fonte segura que o ator
José Maria Santos costuma usar métodos brechteanos em tudo que faz. O que é
que lembra Brecht em ‘’Lá’’ e até que ponto isso vale do
ponto-de-vista social? Zé
Maria: É válido. Já que se fez uma pergunta ‘’PDS’’, em responder uma
“PQP’’. Acho que tudo vale a pena quando a alma não é pequena – isso
Fernando Pessoa já dizia. São poucos os atores no brasil que tem capacidade de
usar o método brechteano de interpretação. Então, eu acho que o método de
Brecht sempre é válido e benéfico em qualquer texto que se use, em qualquer
texto que se monte. Até numa chanchada, até num dramalhão. É um disparate,
um absurdo fazer comparação de Jockyman com Brecht. O que tem a ver, sim, é a
interpretação, que é uma interpretação brechteana. E é importante no
sentido de que envolve o espectador. Seria muito mais positivo talvez do
ponto-de-vista político, dialético, que o espectador não fosse tomado por uma
convulsão de humor o tempo todo, mas que ele tivesse um momento para refletir.
A peça não tem outra tem outra pretensão a não ser a de divertir. As coisas
devem sempre ser levadas as últimas consequências, porque a coisa mais terrível
do mundo é se ver uma comédia dramática. O “Lá’’, pelo menos, tem essa
virtude, essa importância que diverte o espectador. Não tem outra pretensão
além de divertir e de ser um espetáculo bem feito técnicamente. FS: Zé, você sempre usou as
teorias de Brecht para fazer teatro, usou em tudo. Agora, na qualidade de ator,
empresário, nunca montou Brecht. Seria pelo fato de Brecht nunca ter escrito um
monólogo? Zé
Maria: Talvez. Em primeiro lugar, deve-se aprender a usar o método de Brecht. E
por isso é que Brecht nunca foi entendido neste País, porque antes de entender
o método de Brecht de interpretação das coisas, metem-se a querer entender o Brecht. Eu estou no caminho de primeiramente
aprender o método de Brecht. Depois, não vou fazer Brecht, vou fazer textos de
autores nossos. Vou fazer Dias Gomes, Karam... FS: Você vive bem do teatro? Zé
Maria: Economicamente eu vivo bem. Mas isso não me satisfaz. No momento em que
o ser humano deixa de buscar as coisas, de se questionar, ele deixa de viver,
deixa de existir. Eu, por exemplo, consegui tudo
que queria no teatro, apesar das pessoas me aconselharem a desistir do
teatro, porque eu não seria um bom ator! – Então, eu consegui tudo, todos os
privilégios que um ator sonha conseguir. Depois que eu consegui tudo isso,
inclusive o primeiro filme longa metragem que eu fiz me deu um prêmio. E todo
mundo acha que foi um prêmio injusto. Isso
pouco me interessa. Eu ganhei o prêmio em Gramado, onde ninguém me conhecia.
Me, deram o prêmio, então eu acho que é porque eu tinha algum valor. Assim,
eu consegui praticamente tudo o que eu queria. Tenho dinheiro, casa, carro,
mantenho uma família. Mas isso não é o suficiente. Não se pode ser o bobo da
corte. É por isso que eu me proponho a trabalhar, a dirigir peças para
amadores, me proponho, a fazer teatro experimental. Paralelamente eu faço o meu
trabalho de ator profissional. FS: Se seu filho quisesse
fazer teatro... Zé
Maria: Inclusive ele está fazendo um curso de ator no Colégio Estadual. Ele
está fazendo porque ele quer fazer, está fazendo consciente. Se ele não tiver
um mínimo de consciência, ele vai virar funcionário público, vai virar mais
um cara de chapéu na mão pelos corredores dos órgãos oficiais pedindo uma
ajudazinha para montar os espetáculos dele. Mas se ele fizer a coisa com amor,
se ele acreditar naquilo que vai fazer, se tiver a profissão de ator como opção
de vida, vai conseguir alguma coisa. Mas se virar mais um funcionário público
do teatro brasileiro, ele... Agora, ele faz o que quer da vida. Se quiser ser
ator, tudo bem. Eu não o aconselho a ser ator, como também não desaconselho.
Ele é dono da vida dele, ele faz o que quiser da vida dele. |
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