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JOSÉ MARIA SANTOS

IMPRENSA
O Estado do Paraná, Curitiba, 5 de junho de 1980.
Zé Maria tira as calças de novo

FS: Zé Maria, ninguém mais agüenta, Curitiba não agüenta mais, o Paraná não agüenta mais, ninguém mais tem saco para assistir o “Lá”. Fazem nove anos que você está fazendo “Lá” no Paraná, “Lá” em Curitiba, “Lá” em São Paulo, “Lá” no Brasil. Como é que você tem coragem de voltar em pleno ano de 1980, inclusive junto com a abertura de Figueiredo. Você acha que “Lá” resiste à abertura?

Zé Maria: Eu acho que com a abertura do Figueiredo não resiste, porque a abertura dele eu não conheço. Diz-se que Curitiba não agüenta. Eu acho que agüenta, o Brasil agüenta. O Brasil está agüentando coisa pior que isso. Então, um País que agüenta tanta coisa não vai agüentar o “Lá”? Em “Lá” eu não faço nada mais do que o governo está fazendo. Eu sento na privada e faço aquilo que eles estão fazendo com o País! 

FS: Você comprou quantos sítios com o “Lá”?

Zé Maria: Eu tenho vários sítios e agora, com esta temporada de Curitiba eu quero comprar um em Camboriú para ficar junto com os argentinos...

FS: E o helicóptero que você ia comprar? Em 72 você falou que ia comprar um... Deu para comprá-lo?

Zé Maria: Não. O helicóptero eu comprei com a peça do Karam que eu montei, “Fulano de Tal”. Inclusive o sítio que eu tenho na Lapa comprei com a peça do Karam. Muita gente diz que a peça do Karam não dá dinheiro. Claro que dá.

FS: Quantos curitibanos já viram quantas vezes o “Lá”?

Zé Maria: Estatística eu não fiz, mas fiz uma de quantos metros de papel higiênico eu gastei durante os nove anos que estou apresentando a peça. Isto porque eu gasto oito rolos por noite. Oito rolos com cinqüenta metros cada dão quatrocentos metros. Quatrocentos metros em mil dão quatrocentos mil metros de papel higiênico.

FS: Não há jeito de racionalizar a coisa e reaproveitar o papel de uma apresentação para outra? 

Zé Maria: Não é o fator papel higiênico. É o fator m... mesmo, porque, inclusive, está provado que mexer com m... dá dinheiro.

FS: Nessas sucessivas reapresentações do “Lá”, a peça foi adaptada, atualizada em algum aspecto?

Zé Maria: Eu acho que só se justifica essa remontagem devido exatamente a essa mexida que foi dada no texto. Quando eu montei em 71, o texto tinha quatorze corte da Censura. Hoje, o texto veio sem cortes, além do que a gente já colocou em cima do texto.

 FS: Atualização compulsória...

Zé Maria: Exatamente, foi uma atualização compulsória. Aliás, esses cortes não deveriam existir. Mas como eles existiram, e hoje veio sem cortes a gente aproveitou.

 FS: Os cortes eram palavrões? O que eram esses cortes?

Zé Maria: Por incrível que pareça, a peça quase não tem palavrão. Eram cortes mais de cunho político, falando sobre multinacional. A fechadura da porta da privada era de ferro e, consequentemente, fechadura importada dos Estados Unidos. Os banheiros dos Estados Unidos são, principalmente nos grandes edifícios, de porta de ferro ou de aço – evitam o problema de umidade. Não se fabricava no Brasil porta de ferro há anos atrás. Então, todas as portas de banheiros nesses prédios antigos eram importadas dos Estados Unidos. Com isso, o Jochyman dá um piche em cima da indústria, da multinacional, prejudicando a nacional e ainda trancando o cara na privada. São essas coisas que foram cortadas, como um pau em cima da polícia, quando o cara diz que a polícia foi feita para cassar carteira. Numa ocasião, ele deu um cartão de crédito ao policial e este olhou e disse: “Tudo bem, doutor! Tá tudo legal”. Fala dos bombeiros, que só aparecem quando já queimou tudo. São coisas assim. O palavrão industrializado no teatro e a censura no Brasil de 64 para cá não foi uma censura moral, mas censura política. Por isso a censura se tornou imoral. Ela se preocupava mais com a polícia e deixava a imoralidade solta.

FS: Zé, parece que você é dono da peça “Lá”, pai da peça. Como é que você explica? Você comprou os direitos? E por que monólogo?

Zé Maria: Bem, a vantagem de se fazer monólogo, com todo o respeito que eu tenho pelos colegas atores, eu monto monólogo porque prefiro estar só do que mal acompanhado! O fato é que no Brasil existem atores que têm condições de carregar um monólogo nas costas. E eu me considero um dos cinco atores que têm condições e pique para levar um monólogo nas costas.

FS: Quantas horas tem a peça?

Zé Maria: É uma hora e meia. Cronometrado no relógio, é uma gargalhada de minuto em minuto.

FS: Uma resposta você não deu: você é dono da peça?

Zé Maria: Eu sou o único ator atualmente no Brasil que está fazendo a peça. É usucapião. O Jockyman, inclusive, é um cara meio chato nesse sentido. E eu acho que o aturo não deve deixar todo mundo meter a mão nos seus textos. Então, só eu estou fazendo “Lá” no Brasil, atualmente, e espero que ninguém mais se meta a fazê-la. Eu pago direito autoral para o Jockyman. Imagine, se eu consigo ganhar algum dinheiro com “Lá”, e ele, então?

FS: Qual é a importância que a privada tem em sua vida? Privada para você deve ser uma coisa importantíssima...

Zé Maria: Ela é tão importante que eu estou querendo mandar fazer uma privada de ouro maciço para colocar em cima de minha casa, bem em frente do portão. A gente vive num mundo tão cretino, tão hipócrita que se chegar a (...) numa privada de ouro maciço vira moda. Agora, numa privada de louça de Campo Largo... Mas numa de ouro maciço, ah, meu filho, haverá até público para assistir a gente (...) numa privada de ouro maciço.

FS: Já que se está abordando a privada, você disse que prefere trabalhar só do que mal acompanhado... Por que isso?

Zé Maria: Isso, naturalmente, foi uma brincadeira que eu fiz. Evidentemente, eu prefiro trabalhar com outros atores. Mas devido às circunstâncias do teatro brasileiro e de eu também ser um ator que tem condições técnicas de fazer bem o monólogo, segurar o público, então, enquanto eu tenho esse pique, esse preparo físico não vejo razão de não fazer. E enquanto aparecer monólogo tipo “Lá” e “Muro de Arrimo” eu vou continuar fazendo.

FS: E a televisão...

Zé Maria: E acho que a televisão teve uma grande fase, aquela antes do vídeo-tape, quando a televisão era feita de coisas nossas. O que não é importado hoje em dia? E ainda demos azar de sermos descobertos pelos portugueses! A televisão teve uma fase formidável que era aquela fase bem brasileira, bem miserável mesmo, bem terra-terra. Hoje, não se vê o que é a televisão. A televisão, hoje, é o retrato do colonialismo norte-americano que está aí, pois 80, 90 por cento são de programação americana, só se fala em Estados Unidos, o que acontece lá. Coisa brasileira mesmo na televisão não se vê nada.

FS: De nacional só tem a vítima, o telespectador...

Zé Maria: Exatamente. Para vencer o Ibope na televisão eu acho que a única maneira de vencer é voltar a fazer a televisão miserável que se fazia. Tanto que a Tupi começou a fazer um jornal na base de improvisação, desmistificando aqueles apresentadores bonitões, galãs e tal e conseguiu competir até, em termos, com a Globo.

FS: Zé, é verdade que a Rede Globo andou convidando-o para fazer um “Caso Especial” com o “Lá”?

Zé Maria: A gente deve dar um tempo, tem de aguardar. Faturar mais um pouco a peça. Promovendo de vez eu vou queimar o público.

 FS: “Lá” volta aonde? No Guairinha? Por que não no Teatro de Bolso que, dizem, é um mitório... Que acha do Teatro de Bolso?

Zé Maria: O Teatro de Bolso como cenário para o “Lá” seria ótimo... Uma privada, né? Acho que ele serviria para cenário. Mas não haveria lugar para o espectador. Bem, esclarecendo, a peça vai ser levada no Teatro Guaíra, indo até dia 15. Completando porque todo mundo fica dizendo “por que o ‘Lá’?”. Isso é falta de informação. Segundo a história da cultura universal, todos os clássicos são refeitos de tempos em tempos. E “Lá” eu considero um clássico, hoje já é um clássico. Não se reprisa um fracasso, não é verdade? Uma peça que não teve público não pode ser reprisada.

FS: Os clássicos são obras que resistem não só a uma análise teatral ou literária mas também a uma análise científica. E “Lá” não resiste a uma análise literária ou científica.

Zé Maria: Concordo. Ele pode não resistir a uma análise literária e científica, mas ele resiste a uma análise fisiológica...

FS: As comédias de Molière resistem a essas análises e estão aí. Eu duvido que “Lá” resista tanto tempo quanto resiste uma peça de Molière. Acontece o seguinte: você já fez coisas boas com os lucros do “Lá”. Conta isso como é que foi...

Zé Maria: Se eu tivesse nascido na França, hoje eu seria um nome mundial, eu seria um Ibope mundial, eu seria um Alain Delon ou então Richard burton. Mas infelizmente eu nasci em Curitiba. Tem essa mania de brasileiro para com seus grandes artistas. Procópio Ferreira, por exemplo, que foi um homem da maior importância, mas ele teve a infelicidade de ter nascido no Brasil. Paschoal Carlos Magno também teve a infelicidade de nascer no Brasil. Ele nasceu e morreu na m... do Brasil! Se ele tivesse nascido na França ou na Inglaterra, ele não seria tratado com esse despeito com que foi tratado. Sobre os lucros com o “Lá” eu cheguei a fazer algumas coisas boas, cheguei a montar duas peças do Karam, num momento em que nem ele acreditava nos seus textos. Mas como o lucro do “Lá” foi bastante, pensei em montar uma peça do meu amigo Karam. Montei duas peças dele. E espero que com esta temporada eu consiga dinheiro para montar uma terceira.

FS: Conte como é que foi esse final do espetáculo “É”, sexta-feira, no Guaíra... Uma peça em que é possível discutir...

Zé Maria: O Karam acha o “É” um grande texto. Eu acho um saco aquele texto. E não tem o que discutir. O “É” para mim é uma comediota, que não diz nada, é uma mistura... Inclusive o Millôr para mim é um cara meio frustrado porque ele não consegue escrever para a televisão, nem falar para o povo. Então, ele fica naquela base do Vinícius de Morais. Voltando ao “É”, eu sinceramente achei um saco. No dia em que aparecer um hipopótamo aí e cantar, vai para a Globo... vai ter de ir pro Rio de Janeiro. Lá monta, vem para cá e o paranaense vai bater palma...

FS: Outro problema: o “É” é um saco, a encenação é um saco, Paulo José é um mau diretor de teatro. Você mesmo, se dirigisse o “É” com os alunos da escola (de Educação Tecnológica), você faria melhor...

Zé Maria: Não vou pedir desculpas, mas não tenho culpa de eu ter talento como ator e ter conseguido sucesso aqui no Paraná sem sair daqui. E não vou sair daqui. Não tenho culpa se dizem que o “Lá” é isto, “Lá” é aquilo, “Lá” não presta. Isso é outro problema. Respeito a opinião dos outros. Mas se quiserem comprovar a importância da peça, eu vou conferir os borderôs no final da temporada e tudo bem. Então, eu não tenho culpa de levar tudo para o teatro, não tenho culpa de fazer sucesso no teatro, não tenho culpa – deixa eu dar uma de demagogo – de ter talento e não tenho culpa também de não ter saído de Curitiba. Não vou sair, vou ficar aqui, prefiro ficar aqui.

FS: Zé, o que leva uma pessoa, no final de um espetáculo no Guairão elogiar o governador?

Zé Maria: Inclusive eu faço essa pergunta, mas dirigida às pessoas dos órgãos estatais do Paraná. eu tenho amizade com o governador Ney Braga, inclusive. Agora, acho incrível uma coisa: todo artista que vem do Rio e São Paulo chega aqui e diz que o Ney é o pai do artista. Eu acho que o Ney está sendo pai de filhos alheios e está deixando de ser pai dos filhos dele, que são os artistas do Paraná. eu fiz uma estatística ano passado. De dez espetáculos paranaenses que estrearam no Guaíra, eu não vi uma autoridade, nenhum representante do governo, estadual ou municipal. Em contra-partida, até porcarias que estréiam aqui, do Rio ou São Paulo, levam batalhões de pessoas do governo. Para mim não interessa a presença dessas pessoas no teatro, o que me interessa é o público. Isso é antigo não só no Paraná, mas em todo o Brasil. Tem uma estória do Canet, quando era governador do Estado – ele parece ter uma ojerisa (sic) pelo teatro, de cultura, ele parece ter sido daqueles tipos de público de cabresto – quando da inauguração do grande auditório, levaram “Telêmaco”, uma coisa horrorosa que montaram aí sobre um texto do ex-candidato a senador (Túlio Vargas). Essa eu presenciei no Guaíra. Estava lá o governador assistindo, e na peça apareciam umas indizinhas até interessantes porque eram da alta sociedade todas pintadinhas, bonitinhas, coxudinhas. Aí, no intervalo, o assessor, um dos puxa-sacos do Canet – ele tinha um cordão de puxa-sacos – perguntou ao Canet no intervalo: “O que o senhor está achando, governador?” Resposta de Canet: “É, as indiainhas são interessantes. Vai aparecer mais no segundo ato? Se aparecer eu vou ficar, caso contrário acho que eu vou embora”.

FS: Uma coisa preocupa: várias pessoas naturalmente vão merecer estátuas nesta cidade. Mil estátuas! Agora, há uma preocupação com você, Zé, montando, remontando o “Lá”, você, então, vai ter uma estátua sentado numa privada, perpetuado para a história. Você não acha chato você na Praça Ouvidor Pardinho...?

Zé Maria: Isso é uma mistura. Já se imaginou? Tem cara vivo aí que faz estátua. E aquela história do reitor que fez uma estátua, destruíram e ele ficou louco, está procurando a estátua até hoje... Então, um contraste bom seria uma estátua minha sentado numa privada e outra do Figueiredo montado num cavalo. Eu acho que seria um contraste interessante!

FS: Dizem por aí que todo dia, antes de você entrar em cena, fazendo o “Lá”, você se tranca no banheiro às 8h15min, 9 horas começa a peça, e fica decorando o texto para entrar em cena...

Zé Maria: Não. houve um pequeno equívoco no problema do folclore, que não é o caso de decorar texto, porque o texto eu sei de cor. Mas como eu sou um ator muito responsável, e aí é que eu acredito que esteja o segredo dessa peça, às 6 horas da tarde eu já estou no teatro. Me tranco no banheiro, não para decorar o texto, mas para fazer laboratório...

FS: Exame de fezes, hein...?

Zé Maria: Todo ator faz laboratório, elaboração... Para pesquisar o personagem, sentir o personagem, para quando entrar em cena já estar aquecido. Realmente, eu chego ao teatro às 6 horas da tarde, me tranco no banheiro e fico até 15 para às 9.

FS: No dia em que você montar “Hamlet”, por exemplo, vai fazer laboratório onde?

Zé Maria: Bem, eu vou no cemitério!

FS: Você já fez alguma cena de sexo, com a atriz pelada na sua frente?

Zé Maria: Não!

FS: Zé Maria, você fez uma cena de sexo em cinema, mas uma cena homossexual. Foi em “Aleluia Gretchen”, quando pega na mão do guri...

Zé Maria: Peguei na mão, sim. Só na mão, isso na frente da câmera. Depois que terminou a cena o romance continuou...

 FS: Zé, quantos filhos você tem?

Zé Maria: Eu tenho cinco, em casa... Agora, por aí não sei quantos!

FS: A Ruth sabe disso?

Zé Maria: Sabe...

FS: Zé, você vem durante muitos anos fazendo peças brasileiras, já fez peças estrangeiras, já foi ator de Pirandelo. Você teve um projeto recente de fazer uma peça estrangeira – “A Noite dos Campeões” – Explique...

Zé Maria: Eu não cheguei a pensar em fazer a peça “A Noite dos Campeões”. Não sou contra a literatura universal no teatro, mas acho que o teatro estrangeiro, principalmente o americano, não tem nada a ver conosco, não tem nada a ver com a nossa realidade. E a prova disso foi um texto americano que eu montei _”Exercício” _ que dentro de um esquema de carpintaria teatral, de jogo dramático, ele é perfeito, mas não tem nada a ver com a nossa realidade. Mas cai no erro de ter feito “Exercício”, cai no erro de montar “A Noite dos Campeões”, mas acho que tudo é uma questão de reflexão. Hoje, eu não faria por melhor que fosse o texto estrangeiro. Assim, eu prefiro muito mais uma comédia com texto do Karam do que uma comédia de Molière, isso não é demagogia, não.

 FS: Você já fez uma peça, Zé, em que você era ao mesmo tempo o personagem e o Zé Maria também. O que foi que não deu certo naquela peça?

Zé Maria: Eu acho que deu certo. O que eu faço como ator sempre tem cinquenta por cento de mim e cinquenta por cento do ator. Eu acho que o ator sempre deve dar alguma coisa de si. O ator jamais vai deixar de ser ele em cena. Eu acho que ele tem sempre de ser ele. Essa história de que o ator tem de mudar... Não há condições de o cara fazer  essa metamorfose. O que ele tem que fazer passar a verdade que ele diz em cena, isso sim. No momento em que o que ele diz passa a ser uma verdade e o espectador acredita, o ator passa a mudar. Não existe essa mudança metamorfósica, isso é uma besteira. O importante é a verdade, o conteúdo do que ele diz.

FS: O Retamozzo fez uma afirmação de a arte é uma sacanagem, sem organização, não da lucro.

Zé Maria: Eu acho que não é isso. O problema de dar certo ou não é a questão de se acreditar naquilo que se faz. E não é também questão de lucro. É questão de se acreditar naquilo que se faz. Tem o seguinte: eu não me considero um artista marginal, nunca me considerei e nunca vou me considerar. E não é questão de dar certo, é questão de se acreditar no que se faz. Eu acredito muito naquilo que eu faço. Assim, o teatro foi para mim uma opção de vida. Se o cara não tiver o mínimo de organização, hoje, dentro desse sistema diabólico que esta aí, esse sistema de massificação do ser humano... Se o cara não se organizar... Ele tem de se organizar até para entrar num banheiro, até para tomar uma refeição. Então, o elemento tem de estar com o pé no chão. Caso contrário, ele dança mesmo... 

 FS: Como é que você sente sua criatividade junto ao teatro amador e qual a sua influência que esse teatro amador que você faz, tem do teatro profissional?

Zé Maria: Afirmou-se que a peça ‘’Lá’’ não se renova, não acrescenta nada. Não concordo. Acho que não estou fazendo a peça simplesmente no sentido comercial. Não  porque eu não estou precisando de dinheiro. Minha situação está boa, apesar da crise e da ameaça de recessão. Eu estou fazendo ‘’Lá’’ não pelo fato de eu sentir que há uma renovação de público, praticamente uma geração que não viu a peça e que tem possibilidade de assistir, mas pelo fato de poder fazer um novo espetáculo. Não é uma remontagem, é um novo espetáculo, onde tudo foi refeito, desde cenário, sonoplastia, a peça foi reescrita. Eu, inclusive, estou ensaiando esse espetáculo. Então, é um novo espetáculo, não é uma montagem. Por isso, eu acho uma burrice do pessoal de teatro não repetir um sucesso. ’’Calabar’’, de Chico Buarque de Hollanda, com toda aquela onda de proibição, estreou em São Paulo e está mal. Eu acho lamentável que aconteça isso. O fato de eu estar fazendo o ‘’Lá’’ novamente, não é que seja o lado comercial. É comercial, é evidente, mas é um fator profissional, ele me da o exercício como ator. Ele é um texto que inclusive corre o risco de ser interditado, ser proibido pelas colocações políticas que a peça tem, no momento

FS: Brecht colocava suas piadas como um recurso dialético; ele envolvia o espectador com uma dose de humor político. Sabe-se de fonte segura que o ator José Maria Santos costuma usar métodos brechteanos em tudo que faz. O que é que lembra Brecht em ‘’Lá’’ e até que ponto isso vale do ponto-de-vista social?

Zé Maria: É válido. Já que se fez uma pergunta ‘’PDS’’, em responder uma “PQP’’. Acho que tudo vale a pena quando a alma não é pequena – isso Fernando Pessoa já dizia. São poucos os atores no brasil que tem capacidade de usar o método brechteano de interpretação. Então, eu acho que o método de Brecht sempre é válido e benéfico em qualquer texto que se use, em qualquer texto que se monte. Até numa chanchada, até num dramalhão. É um disparate, um absurdo fazer comparação de Jockyman com Brecht. O que tem a ver, sim, é a interpretação, que é uma interpretação brechteana. E é importante no sentido de que envolve o espectador. Seria muito mais positivo talvez do ponto-de-vista político, dialético, que o espectador não fosse tomado por uma convulsão de humor o tempo todo, mas que ele tivesse um momento para refletir. A peça não tem outra tem outra pretensão a não ser a de divertir. As coisas devem sempre ser levadas as últimas consequências, porque a coisa mais terrível do mundo é se ver uma comédia dramática. O “Lá’’, pelo menos, tem essa virtude, essa importância que diverte o espectador. Não tem outra pretensão além de divertir e de ser um espetáculo bem feito técnicamente.

 FS: Zé, você sempre usou as teorias de Brecht para fazer teatro, usou em tudo. Agora, na qualidade de ator, empresário, nunca montou Brecht. Seria pelo fato de Brecht nunca ter escrito um monólogo?

Zé Maria: Talvez. Em primeiro lugar, deve-se aprender a usar o método de Brecht. E por isso é que Brecht nunca foi entendido neste País, porque antes de entender o método de Brecht de interpretação das coisas, metem-se a querer  entender o Brecht. Eu estou no caminho de primeiramente aprender o método de Brecht. Depois, não vou fazer Brecht, vou fazer textos de autores nossos. Vou fazer Dias Gomes, Karam...

 FS: Você vive bem do teatro?

Zé Maria: Economicamente eu vivo bem. Mas isso não me satisfaz. No momento em que o ser humano deixa de buscar as coisas, de se questionar, ele deixa de viver, deixa de existir. Eu, por exemplo, consegui tudo  que queria no teatro, apesar das pessoas me aconselharem a desistir do teatro, porque eu não seria um bom ator! – Então, eu consegui tudo, todos os privilégios que um ator sonha conseguir. Depois que eu consegui tudo isso, inclusive o primeiro filme longa metragem que eu fiz me deu um prêmio. E todo mundo acha que foi um prêmio injusto.

Isso pouco me interessa. Eu ganhei o prêmio em Gramado, onde ninguém me conhecia. Me, deram o prêmio, então eu acho que é porque eu tinha algum valor. Assim, eu consegui praticamente tudo o que eu queria. Tenho dinheiro, casa, carro, mantenho uma família. Mas isso não é o suficiente. Não se pode ser o bobo da corte. É por isso que eu me proponho a trabalhar, a dirigir peças para amadores, me proponho, a fazer teatro experimental. Paralelamente eu faço o meu trabalho de ator profissional.

 FS: Se seu filho quisesse fazer teatro...

Zé Maria: Inclusive ele está fazendo um curso de ator no Colégio Estadual. Ele está fazendo porque ele quer fazer, está fazendo consciente. Se ele não tiver um mínimo de consciência, ele vai virar funcionário público, vai virar mais um cara de chapéu na mão pelos corredores dos órgãos oficiais pedindo uma ajudazinha para montar os espetáculos dele. Mas se ele fizer a coisa com amor, se ele acreditar naquilo que vai fazer, se tiver a profissão de ator como opção de vida, vai conseguir alguma coisa. Mas se virar mais um funcionário público do teatro brasileiro, ele... Agora, ele faz o que quer da vida. Se quiser ser ator, tudo bem. Eu não o aconselho a ser ator, como também não desaconselho. Ele é dono da vida dele, ele faz o que quiser da vida dele.

 
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