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José
Maria Santos, 30 anos de carreira artística e o mesmo tanto de luta a favor da
classe seja no palco ou fora dele, descobre-se comediante por vocação em seu
segundo show de humor: “Procurando Sarney para se Coçar”. Mas não há
muito do que se rir na entrevista que se segue. Afinal, o ator e produtor Zé
Maria, como é mais conhecido, disse algumas verdades que se não fazem chorar
servem pelo menos para se meditar. Como
está a produção de textos de humor? Zé
Maria: Não existe mais humorista. Há uma crise total de autores, tanto no
esquema de shows como nas comédias de costume, tipo Martins Pena, Moliére. Então
há uma crise geral dentro do humor. O autor teatral está em extinção; não
tem surgido nada de novo no mundo inteiro. Seja na Rússia sejam nos Estados
Unidos, estão sempre remontando os grandes clássicos. Há uma crise universal
de autores tanto de dramas quanto de comédias. A
que você atribui esta constatação? Zé
Maria: É um fenômeno que eu atribuo no Brasil à falta de estrutura
empresarial do teatro. Dias Gomes, por exemplo, que é um conhecido autor tanto
para palco como para tevê e que escreveu a admirável peça “O Pagador de
Promessas” (Palma de Ouro em Cannes), reclamou recentemente que nos Estados
Unidos basta um sucesso para o dramaturgo levar seis meses só pensando em outro
texto. Aqui se faz trinta textos de sucesso e o próximo será colocado embaixo
do braço e seu autor terá que sair mendigando para ser encenado. Peça com
conteúdo artístico ou de fundo político não é produzida. Olha-se mais para
a bilheteria do que para o que acontece no palco. E o autor não é uma profissão
da qual se possa viver dela. No Paraná, temos o Dalton Trevisan que não vive
da sua obra. No Brasil, o único autor a viver do que escreve, exclusivamente,
é Jorge Amado. Bem,
vem aí a lei Sarney. Você está apostando nela? Zé
Maria: Não aposto na lei Sarney porque o Brasil não tem estrutura de fiscalização.
Aqui todo mundo quer ser malandro: já estão maquinando coisas para burlar a
lei. Além disso é uma lei que veio do poder e praticamente foi encampada pelos
órgãos públicos nos Estados. Enfim, caiu no emaranhado burocrático: tem-se
que cadastrar no Ministério da Cultura, passar pelas fundações da vida,
elaborar projetos... Por que uma fundação tem tanto interesse em abocanhar
tudo isso se ela não consegue gerir com competência a verba que já lhe é
atribuída? Esse dinheiro vai ser aplicado aonde e de que maneira? Estou falando
por companheiros que dependem e precisam dessas coisas. Eu, felizmente, apesar
de ter direitos, não vou perder tempo com elaboração de projetos que ficarão
engavetados e sofrendo boicotes. Mas
você recorreu á verba oficial para montar o atual show... Zé
Maria: Noventa por cento dos artistas brasileiros dependem de verbas oficiais.
Você escreveu na coluna” Bastidores “ do “ Almanaque ‘’, numa
sexta-feira, que o teatro de Curitiba está tendo benesses do Estado e com pouco
resultado. É uma injustiça contra o artista porque não há teta do Estado, não
há benesses. Acaba de sair em edital uma verba de 200 mil cruzados beneficiando
23 grupos do Paraná. A cada um, uns trocados. Só no meu show gastei 80 mil
cruzados. Portanto, toda verba estatal dá para se produzir apenas um monólogo.
Os órgãos que distribuem essa migalha ainda vêm exigir qualidade, querer algo
em troca. Como é que pode exigir isso? Os grupos não se capitalizam, não
compram equipamentos de luz. Como? Se para montar uma peça decente gasta-se 200
mil cruzados e os cabras dão 8 mil! É uma vergonha. Resultado: em Curitiba não
há um movimento teatral consistente. Realmente pleiteei a verba oficial, mas não
fiquei esperando por ela. E pedi porque tenho direito, não que precise, pois o
que deram vai dar para pagar apenas o material de divulgação. Antes
da próxima pergunta, Zé Maria adianta-se: Zé
Maria: Me acusam de montar monólogos. E daí? Tenho capacidade para isso e em
segundo lugar nesses 30 anos de carreira lancei novos autores como Manoel Carlos
Karam, o Valêncio Xavier, o Aldo Schmitz (o Francisco Camargo começou a
escrever um texto para mim mas a censura o desanimou): produzi peça do Luiz
Groff que ficou seis meses em cartaz. Coloquei espetáculo por três meses no
Guairinha, em período de férias e não precisei fazer nenhum cancelamento.
Vivo com dignidade e decência dentro de minha arte, não me enquadro dentro das
lamúrias... E
como você se sente vendo o Teatro 13 de Maio, em vias de extinção, um teatro
que você construi e pelo qual teve que empenhar apartamento, vender carro e até
ter problemas domésticos? Zé
Maria: Ãs vezes fico pensando se não estou omisso, afinal é uma casa de espetáculos
que foi construída com esforço de muitas pessoas, mas também não vou ser a
viúva do teatro, embora realmente tivesse sacrificado minha vida por ele. O
problema é que a classe teatral está totalmente desmobilizada porque foi
cooptada por esse governo que calou a boca do pessoal dando um empreguinho pra
cada um. Se tivesse unida – oras, não é fácil derrubar um teatro! –
poderia brigar em alto nível na Justiça. Poderia até ter reivindicado junto
aos proprietários do imóvel a construção de um auditório de 300 lugares no
mesmo espaço, pois ali será construído um shopping center que comportaria
perfeitamente um teatro. Não
há, inclusive, uma lei que determina a construção de um novo espaço cultural
em substituição ao que for demolido? É o caso por exemplo da Mesbla que está
situada onde era o Cine Ópera e teve que construir outro cinema, embora nunca
fosse inaugurado. Zé
Maria: Lei há, mas peço desculpas, sinto até que estão torcendo para acabar
com o teatro. Parece que a classe se quer ver livre daquilo ali. O teatro foi
construído (80/81) porque a classe se mobilizou. Conseguimos recursos da
comunidade. Todo espaço locado pela associação (hoje Associação dos
Produtores de Artes Cênicas) dava uns 900 metros quadrados. No entanto, dos 17
grupos então filiado (sic) nenhum se dispôs a montar uma peça para a inauguração.
Está em ata, se já não queimaram. Havia um projeto do arquiteto La Pastina (o
Paper, que projetou o teatro) em se construir na frente um outro auditório com
700 lugares. O atual, de 200 lugares, seria um espaço alternativo. O outro, era
de arena. Mas só ficou no projeto. Não
entendo por que a associação não solicitou o tombamento do prédio. Zé
Maria: Logo após a inauguração veio a mudança de governo. Deixei a associação
e sugeri à diretoria que pedisse imediatamente o tombamento. Ali havia artistas
que trabalharam na campanha eleitoral do Maurício Fruet . Mas deixaram de lado
algo que era prioritário. O tombamento era perfeitamente justificável, pois o
teatro está situado dentro de área do patrimônio histórico (Rua 13 de Maio,
próximo ao Largo da Ordem, Praça Garibaldi, onde estão museus, várias casas
tombadas e a própria Secretaria Municipal de Cultura). Mas o descaso é tanto
que vou te contar uma história a título de ilustração. O Teatro da Classe,
que depois passou a se chamar Teatro 13 de Maio, tinha uma biblioteca que reunia
cerca de 800 volumes, entre revistas, livros e textos teatrais encadernados. O
Lineu Portela me contou que um dia foi lá e encontrou o acervo todo jogado e até
com goteira por cima. Ele avisou ao Enéas, da associação, que iria levar pelo
menos os textos. Desta maneira conseguiu-se salvar uns 300 textos. A
entrevista foi encerrada aqui. Ator talentoso, José Maria Santos, entretanto, não
conseguiu disfarçar uma emoção sincera quando a extinção do Teatro 13 de
Maio entrou em cena. Fecha o pano. A
comédia e o comediante “José
Maria Santos Procura Sarney para se coçar”, de volta ao Guairinha em quatro
apresentações a partir desta quinta-feira, às 21 horas, até domingo, revela
algumas facetas do ator que caiu na comédia com “Lá”, de Sérgio Jokyman,
e que hoje, 16 anos após a primeira montagem, não se sabe mais quem é o
autor, se o Zé Maria ou o próprio. Afinal, 16 anos de convivência com um
texto acaba levando o ator a ser no mínimo cúmplice do autor. Mas
se em “Lá” Zé Maria aprendeu a ficar só num palco, na peça atual ele até
pode dar aulas a respeito. Brinca com a platéia na maior desenvoltura, troca de
roupa em cena sem a menor complicação, encontra saídas para qualquer resposta
do público e sabe deixar algumas senhoras com indisfarçáveis rubores na face
sem contudo ferir sensibilidades. Um
dos melhores quadros - textos de Valêncio
Xavier e Aldo Schmitz com arranjos do próprio Zé Maria - é a da
“Maria Polaca”. Ali, à mostra, a versatilidade do ator. Pela primeira vez
travestido em mulher, Zé Maria transmite toda a ternura sapeca de uma
verdureira sem papas na língua e de sotaque atravessado. |
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