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JOSÉ MARIA SANTOS

IMPRENSA
O Estado do Paraná, Curitiba, 2 de novembro de 1986. Almanaque 
Zé Maria, um comediante falando sério
Adélia Maria Lopes

José Maria Santos, 30 anos de carreira artística e o mesmo tanto de luta a favor da classe seja no palco ou fora dele, descobre-se comediante por vocação em seu segundo show de humor: “Procurando Sarney para se Coçar”. Mas não há muito do que se rir na entrevista que se segue. Afinal, o ator e produtor Zé Maria, como é mais conhecido, disse algumas verdades que se não fazem chorar servem pelo menos para se meditar.  

Como está a produção de textos de humor?

Zé Maria: Não existe mais humorista. Há uma crise total de autores, tanto no esquema de shows como nas comédias de costume, tipo Martins Pena, Moliére. Então há uma crise geral dentro do humor. O autor teatral está em extinção; não tem surgido nada de novo no mundo inteiro. Seja na Rússia sejam nos Estados Unidos, estão sempre remontando os grandes clássicos. Há uma crise universal de autores tanto de dramas quanto de comédias.

A que você atribui esta constatação?

Zé Maria: É um fenômeno que eu atribuo no Brasil à falta de estrutura empresarial do teatro. Dias Gomes, por exemplo, que é um conhecido autor tanto para palco como para tevê e que escreveu a admirável peça “O Pagador de Promessas” (Palma de Ouro em Cannes), reclamou recentemente que nos Estados Unidos basta um sucesso para o dramaturgo levar seis meses só pensando em outro texto. Aqui se faz trinta textos de sucesso e o próximo será colocado embaixo do braço e seu autor terá que sair mendigando para ser encenado. Peça com conteúdo artístico ou de fundo político não é produzida. Olha-se mais para a bilheteria do que para o que acontece no palco. E o autor não é uma profissão da qual se possa viver dela. No Paraná, temos o Dalton Trevisan que não vive da sua obra. No Brasil, o único autor a viver do que escreve, exclusivamente, é Jorge Amado.

Bem, vem aí a lei Sarney. Você está apostando nela?

Zé Maria: Não aposto na lei Sarney porque o Brasil não tem estrutura de fiscalização. Aqui todo mundo quer ser malandro: já estão maquinando coisas para burlar a lei. Além disso é uma lei que veio do poder e praticamente foi encampada pelos órgãos públicos nos Estados. Enfim, caiu no emaranhado burocrático: tem-se que cadastrar no Ministério da Cultura, passar pelas fundações da vida, elaborar projetos... Por que uma fundação tem tanto interesse em abocanhar tudo isso se ela não consegue gerir com competência a verba que já lhe é atribuída? Esse dinheiro vai ser aplicado aonde e de que maneira? Estou falando por companheiros que dependem e precisam dessas coisas. Eu, felizmente, apesar de ter direitos, não vou perder tempo com elaboração de projetos que ficarão engavetados e sofrendo boicotes.

Mas você recorreu á verba oficial para montar o atual show...

Zé Maria: Noventa por cento dos artistas brasileiros dependem de verbas oficiais. Você escreveu na coluna” Bastidores “ do “ Almanaque ‘’, numa sexta-feira, que o teatro de Curitiba está tendo benesses do Estado e com pouco resultado. É uma injustiça contra o artista porque não há teta do Estado, não há benesses. Acaba de sair em edital uma verba de 200 mil cruzados beneficiando 23 grupos do Paraná. A cada um, uns trocados. Só no meu show gastei 80 mil cruzados. Portanto, toda verba estatal dá para se produzir apenas um monólogo. Os órgãos que distribuem essa migalha ainda vêm exigir qualidade, querer algo em troca. Como é que pode exigir isso? Os grupos não se capitalizam, não compram equipamentos de luz. Como? Se para montar uma peça decente gasta-se 200 mil cruzados e os cabras dão 8 mil! É uma vergonha. Resultado: em Curitiba não há um movimento teatral consistente. Realmente pleiteei a verba oficial, mas não fiquei esperando por ela. E pedi porque tenho direito, não que precise, pois o que deram vai dar para pagar apenas o material de divulgação.

Antes da próxima pergunta, Zé Maria adianta-se:

Zé Maria: Me acusam de montar monólogos. E daí? Tenho capacidade para isso e em segundo lugar nesses 30 anos de carreira lancei novos autores como Manoel Carlos Karam, o Valêncio Xavier, o Aldo Schmitz (o Francisco Camargo começou a escrever um texto para mim mas a censura o desanimou): produzi peça do Luiz Groff que ficou seis meses em cartaz. Coloquei espetáculo por três meses no Guairinha, em período de férias e não precisei fazer nenhum cancelamento. Vivo com dignidade e decência dentro de minha arte, não me enquadro dentro das lamúrias...

E como você se sente vendo o Teatro 13 de Maio, em vias de extinção, um teatro que você construi e pelo qual teve que empenhar apartamento, vender carro e até ter problemas domésticos?

Zé Maria: Ãs vezes fico pensando se não estou omisso, afinal é uma casa de espetáculos que foi construída com esforço de muitas pessoas, mas também não vou ser a viúva do teatro, embora realmente tivesse sacrificado minha vida por ele. O problema é que a classe teatral está totalmente desmobilizada porque foi cooptada por esse governo que calou a boca do pessoal dando um empreguinho pra cada um. Se tivesse unida – oras, não é fácil derrubar um teatro! – poderia brigar em alto nível na Justiça. Poderia até ter reivindicado junto aos proprietários do imóvel a construção de um auditório de 300 lugares no mesmo espaço, pois ali será construído um shopping center que comportaria perfeitamente um teatro.

Não há, inclusive, uma lei que determina a construção de um novo espaço cultural em substituição ao que for demolido? É o caso por exemplo da Mesbla que está situada onde era o Cine Ópera e teve que construir outro cinema, embora nunca fosse inaugurado.

Zé Maria: Lei há, mas peço desculpas, sinto até que estão torcendo para acabar com o teatro. Parece que a classe se quer ver livre daquilo ali. O teatro foi construído (80/81) porque a classe se mobilizou. Conseguimos recursos da comunidade. Todo espaço locado pela associação (hoje Associação dos Produtores de Artes Cênicas) dava uns 900 metros quadrados. No entanto, dos 17 grupos então filiado (sic) nenhum se dispôs a montar uma peça para a inauguração. Está em ata, se já não queimaram. Havia um projeto do arquiteto La Pastina (o Paper, que projetou o teatro) em se construir na frente um outro auditório com 700 lugares. O atual, de 200 lugares, seria um espaço alternativo. O outro, era de arena. Mas só ficou no projeto.

 Não entendo por que a associação não solicitou o tombamento do prédio.

Zé Maria: Logo após a inauguração veio a mudança de governo. Deixei a associação e sugeri à diretoria que pedisse imediatamente o tombamento. Ali havia artistas que trabalharam na campanha eleitoral do Maurício Fruet . Mas deixaram de lado algo que era prioritário. O tombamento era perfeitamente justificável, pois o teatro está situado dentro de área do patrimônio histórico (Rua 13 de Maio, próximo ao Largo da Ordem, Praça Garibaldi, onde estão museus, várias casas tombadas e a própria Secretaria Municipal de Cultura). Mas o descaso é tanto que vou te contar uma história a título de ilustração. O Teatro da Classe, que depois passou a se chamar Teatro 13 de Maio, tinha uma biblioteca que reunia cerca de 800 volumes, entre revistas, livros e textos teatrais encadernados. O Lineu Portela me contou que um dia foi lá e encontrou o acervo todo jogado e até com goteira por cima. Ele avisou ao Enéas, da associação, que iria levar pelo menos os textos. Desta maneira conseguiu-se salvar uns 300 textos.

A entrevista foi encerrada aqui. Ator talentoso, José Maria Santos, entretanto, não conseguiu disfarçar uma emoção sincera quando a extinção do Teatro 13 de Maio entrou em cena. Fecha o pano.

A comédia e o comediante

“José Maria Santos Procura Sarney para se coçar”, de volta ao Guairinha em quatro apresentações a partir desta quinta-feira, às 21 horas, até domingo, revela algumas facetas do ator que caiu na comédia com “Lá”, de Sérgio Jokyman, e que hoje, 16 anos após a primeira montagem, não se sabe mais quem é o autor, se o Zé Maria ou o próprio. Afinal, 16 anos de convivência com um texto acaba levando o ator a ser no mínimo cúmplice do autor.

Mas se em “Lá” Zé Maria aprendeu a ficar só num palco, na peça atual ele até pode dar aulas a respeito. Brinca com a platéia na maior desenvoltura, troca de roupa em cena sem a menor complicação, encontra saídas para qualquer resposta do público e sabe deixar algumas senhoras com indisfarçáveis rubores na face sem contudo ferir sensibilidades.

Um dos melhores quadros - textos de Valêncio  Xavier e Aldo Schmitz com arranjos do próprio Zé Maria - é a da “Maria Polaca”. Ali, à mostra, a versatilidade do ator. Pela primeira vez travestido em mulher, Zé Maria transmite toda a ternura sapeca de uma verdureira sem papas na língua e de sotaque atravessado.

Zé Maria confessa-se criança quando se acha sozinho no palco (em alguns números, apresenta-se ao lado do “violeiro” Luís Fernando, que também dá um toque de desenvoltura). Realmente, percebe-se sua inteira liberdade em transar com o palco. E suas brincadeiras com o público, à primeira vista muito fácil (sic), revelam isto sim uma tarimba teatral que poucos atores conseguem, mesmo os que com ele chegam aos 30 anos de carreira. Segurar um espetáculo por duas horas sem que o público comece a se coçar exige talento, disciplina e envolvimento com a platéia só compreensível com um substantivo: vocação. E Zé Maria não é cômico ou humorista. É comediante. Uma vocação que, infelizmente, não há muitos espelhos em Curitiba para se comparar / refletir / aprender. ( A.M.L).
 
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