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JOSÉ MARIA SANTOS

IMPRENSA
JORNAL DO ESTADO, CURITIBA, 29 DE JANEIRO DE 1987. ESPAÇO DOIS. 
JOSÉ MARIA SANTOS PROCURA SARNEY PRA SE COÇAR
Show de humor, política e safadeza

José Maria Santos está retornando ao palco do Teatro Guaíra com sua irreverência de humorista e versatilidade de ator, O espetáculo de humor, política e safadeza “José Maria Santos Procura Sarney pra se Coçar”; volta renovado, com novos quadros, acompanhando os acontecimentos políticos, como a eleição de Álvaro Dias para governador do Paraná, além de conservar outros personagens que fizeram milhares de espectadores morrerem de rir, como a Polaca que era candidata à Constituinte, mas não recebeu nenhum voto, ela mesma votou em branco para não votar em Maurício Nasser; agora a Polaca é candidata á presidência da República. O es­petáculo do Zé Maria estará em cartaz no Guairinha, sendo às quintas, sextas e sábados com início às 21 horas e aos domingos, às 20 horas. Na primeira temporada em Curitiba o ingresso custava 50 cruzados com mais 10 cruzados do compulsório; na segunda temporada a entrada passou para 80 cruzados, ou seja, com 30 cruzados de ágio; mas agora, Zé Maria resolveu fazer uma temporada popular com ingressos grátis, o espectador paga apenas o ágio, ou melhor, Cz$ 30,00. As apresentações do show têm o apoio do JORNAL DO ESTADO e de Ruy 88.

 Reproduzimos uma entrevista com José Maria Santos feita por AIdo Schmitz, também um dos autores do espetáculo “Jo­sé Maria Santos Procura Sarney pra se Coçar”.

AIdo Schmitz: Pô Zé Maria, Curitiba inteira já assistiu o teu show e agora mais uma vez em cartaz?

Zé Maria: Apesar que você perguntou mais na brincadeira, vou responder seriamente. Apesar de Curitiba não ser uma das melhores cidades para a cultura. E, prova que existe um público para espetáculos teatrais é que eu estou voltando já pela terceira vez com este show. E pra mim isso não é muita novidade, porque geralmente o sucesso na vida de um artista acontece uma vez só. Duvido que um artista por mais famoso que seja, ter conseguido mais de um grande sucesso. E eu felizmente tive um grande sucesso com o mo­nólogo de Sérgio Jockyman, ‘Lá’ que eu ainda continuo fazendo há dez anos, já completei 1600 apresentações. E este show, nós fizemos assim meio sem pretensão, mas preocupados em fazer um espetáculo engraçado e de bom nível artístico e o resultado está ai. Eu estou acreditando que já está acontecendo na minha carreira de ator dois grandes sucessos. Estou voltando para a terceira temporada do show no Teatro Guaíra e acredito que vai ter muito mais sucesso que as anteriores.

AIdo Schmitz: Entre os vários quadros do show, um é somente com piadas, por que você colocou piadas no show? E, é fácil fazer rir?

Zé Maria: Colocamos as piadas no inicio do espetáculo, não somente para que os atrasados não percam o fio da meada, mas principalmente para descontrair o espectador. Discordo desta teoria de que fazer humor é fácil. Inclusive o humorista no mundo inteiro é uma espécie em extinção, praticamente não existe mais grandes atores comediantes. Agora, no nosso show nas primeiras apresentações não tinham as piadas, eram só os quadros. Então para quebrar o gelo, para o público relaxar, inserimos algumas piadas interessantes. Enfim, ficou um espetáculo com alguma inovação, porque não segue o roteiro destes shows de humor convencionais. Tanto que este nosso show foi reescrito umas dez vezes, e continua sendo recriado, para acompanhar as mudanças da política, da economia etc. E quem trabalha com humor e não tem esta disposição de mexer no texto constantemente, corre o risco de apresentar um show ultrapassado.

Aldo Schmitz: Tem o quadro do Caipira, escrito pelo Valência Xavier, ainda o Analista de Bagé e o quadro da Polaca candidata a Presidente. E daí Zé, você está assumindo? Como é esse lance de fazer uma mulher?

Zé Maria: Acho que não é uma questão de assumir. Corno diz o Jânio Quadros, “todo homem tem o seu lado fêmeo”. E o ator, principalmente o comediante tem que experimentar todas as facetas cênicas, da vida. É um dos quadros mais engraçados, o da Polaca, que era candidata à Constituinte, não foi eleita, mas já é candidata à Presidência da Repú­blica. Acho que é um direito que ela tem, afinal tantos corruptos querem ser presidente e por que não uma lavradora? Eu gosto de fazer tudo no show, mas na personagem da Polaca eu me sinto bem. E o cara não precisa desmunhecar quando faz uma mulher. Faço o papel de urna mulher, mas tenho trejeito, aí é que fica a graça, um ator meio rude como eu, fazendo uma mulher sem desmunhecar. Fazer a caricatura do feminino é uma coisa fácil e sem graça.

Aldo Schmitz: O show está rendendo milhões, eu queria saber quando os autores vão receber os direitos autorais?

Zé Maria: Os autores já receberam adiantado, você mesmo, que é um dos autores, ganhou um castelo na Suíça que pertenceu ao conde Drácula e o Valêncio Xavier recebeu dois sítios, um na Lapa, que pertencia ao monge da Lapa e outro em Morretes, ele vai ser vizinho do Aluizio Cherobim. Inclusive os autores estão pagos até o ano 2000. E não é qualquer ator que tem dois escritores à sua disposição diariamente.

 Aldo Schmitz: Você é um grande amigo do Álvaro Dias, sei que você está magoado com o nosso governador eleito, porque ele te prometeu a Secretaria da Cultura e no fim, deu para o doutor Renê Dotti. E agora o que vai sobrar pra você?

Zé Maria: Mas eu não queria realmente, aliás, ele acertou em convidar Renê. O Álvaro confundiu-se porque o Renê Dotti fez teatro comigo e na hora dele escolher, ele viu um álbum de fotos onde apareciam o Renê, eu, o Ary Fontoura e enganou-se na escolha e não quis voltar atrás. E pra mim vai sobrar a amizade. E que fique bem claro, não é amizade colorida.

Aldo Schmitz E quanto ao ingresso? Primeiro você cobrou 50 cruzadas com 10 de compulsório, depois cobrou um ágio de mais 30, passando o ingresso a 80 cruzados. E agora você vem com essa de apenas 30 pau. Qual é, você quer fundir a cabeça da Sunab, quer bagunçar com o Plano Cruzado, pô?

Zé Maria: Acho que é pra bagunçar no bom sentido. Se o Governo não tem competência para governar, vamos nós baixar os preços, para provar que dá certo. E você vê como eu ganhei dinheiro! Se agora estou cobrando só o ágio da temporada passada, 30 pau, então imagine quanta grana que eu faturei cobrando 80 pau. Então eu posso abrir mão de um pouco desse lucro que eu tive nas temporadas anteriores em beneficio do público. E gostaria que as pessoas que normalmente não vão ao teatro fossem assistir o nosso show, afinal o ingresso é grátis o espectador só paga o ágio.

Aldo Schmitz: Zé, como pode um cara baixi­nho, feio, que fala enrolado, ser o melhor ator paranaense?

Zé Maria: Acho que ser o melhor ator paranaense não é vantagem nenhuma, pô. Agora, em terra de cego quem tem um olho é rei (risadas, ah, ah). Eu não sou o melhor ator paranaense, você está muito equivocado, sou o melhor ator do mundo. Inclusive eu estava dividindo o título com Marlon Brando e ele mandou uma carta na semana passada dizendo que, frente ao meu talento, ele abria mão, deixando só pra mim este título.

 Aldo Schimitz: Afinal, pra que serve aquelas tabelas que a gente levava para as compras? E o empacotador Dilson Futuro, qual será o fim dele? Vai terminar na seção de pacotes da Loja do Pedro?

Zé Maria: Acho que o futuro mesmo do Funaro é acabar como empacotador da Loja do Pedro. Realmente esse Plano Cruzado foi uma enganação, a tal da tabela agora não serve nem pra papel higiênico. 

Aldo Schmitz: Por que você colocou o Presidente Sarney no elenco do show?

Zé Maria: Nas primeiras temporadas do show era difícil fazer piada com o Sarney, porque ele virou, num passe de mágica, num santo, mas de repente veio o compulsório – inclusive também uma piada tua, que compulsório no dos outros é refresco –, depois o Plano Caracu, onde o Governo entrou com a cara e o povo com o resto; então o Sarney acabou desmoralizado. Agora ele é muito engraçado! 

Aldo Schmitz: Diga aí Zé, é mentira que você tem um harém de mulheres, castelos espalhados por todo o mundo, mansões na Líbia, um sítio na Lapa, é sócio do Pinochet numa multinacional no Chile.

Zé Maria: Não, não é mentira, é verdade. E co­meteram mais uma infâmia comigo, sendo que eu também tenho uma Ilha no Golfo Pérsico entre o Irã e o Iraque, inclusive estou financiando parte daquela guerra, quero que o Irã vença, assim eu faço um cambalacho com o Khomeini, antes que ele morra. 

Aldo Schmitz: No show anterior você tinha no elenco o Ney Braga e o José Richa, em “Nem Gay nem Bicha”, agora você está com a Sarney. Qual vai ser a tua próxima vítima?

Zé Maria: Se a situa­ção do Brasil continuar assim por uns cinquenta anos, acho que vou continuar a fazer este show, porque quanto pior a situação, melhora o humor.

 
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