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José
Maria Santos, 30 anos de carreira, sem cara de galã e de fala enrolada, está
de volta ao palco do Guairinha, em curta temporada, de hoje a Domingo, com o
espetáculo “José Maria procura Sarney pra se Coçar”. Nessa entrevista,
dias antes da estréia (ou reestréia) o ator conversou com Tânia Toledo e o
papo enveredou pelo lado político – como não poderia deixar de ser – e
pela paixão de Zé Maria pelo monólogo. “Depois do sucesso de ‘Lá’, o
teatro paranaense virou um monólogo só” diz ele e depois de ter desferido um
dito popular sobre os colegas da classe “como uma brincadeira”, ainda que
mau interpretada: “Antes só do que mal acompanhado”. Nessa
peregrinação solitária tendo no palco só a companhia de suas encarnações
como a Polaca de Contenda, ele chega às 281 apresentações da peça –
escrita especialmente para ele por Aldo Schmitz e Valêncio Xavier. O lado político
e irreverente de Zé Maria pode ser conferido na entrevista. Sem papas na língua. Tânia
Toledo – Você é um ator que se destaca, de um lado, pelo humor, de outro,
pela abordagem política como a peça Lá, se Sérgio Jockman, que você
direcionou para esse caminho. Agora, com José Maria Santos procura Sarney pra
se coçar, que é um prato cheio, está no caminho. Como entrar num palco,
sozinho, e durante duas horas desfiar comentários a respeito do caos nacional? Zé
Maria Santos – A questão de você mexer com conteúdo político em teatro,
principalmente em show, é que precisa de dinamismo. A coisa se esvazia de
uma hora para outra. Um fato que hoje é marcante, amanhã ninguém lembra mais.
Você tem que estar sempre em cima do lance pra tornar a coisa mais atual. Esse
é o grande problema, no cinema ou no teatro. Mas eu sempre me adaptei bem com
esse ritmo e tenho uma preocupação muito grande, em tudo que eu faço e fiz,
de dar uma conotação política porque acho que não tem esse papo de ser político.
Só o ato de você viver é político. Principalmente
hoje que os políticos estão numa fase de decadência total. A gente tem
que estar muito atento a tudo que acontece no Brasil e no mundo pra poder
apresentar um espetáculo atual. Tânia
Toledo – E o palco serve para esse propósito? Zé
Maria Santos – O palco é o grande espaço do ator porque o que você diz na
televisão ou no cinema é filtrado através de uma máquina e não chega com a
contundência ao espectador. O teatro é vivo no qual a platéia recebe a
mensagem de uma maneira direta. Apesar do público de teatro ser diminuto, estar
em extinção, praticamente, no mundo – como o de cinema de sala - o impacto
é muito grande. Por isso, talvez a explicação de o teatro ser muito mais
visado em tempos de censura. Um exemplo é a peça Lá, que eu dei um tratamento
critico e político. E foi escrita na época da revolução. Ela veio com muitos
cortes. A censura cortava besteiras, como o detalhe da porta do banheiro. Muitas
pessoas não sabem mas as portas dos primeiros edifícios de Paris eram
importadas e de ferro. E a porta do banheiro, onde o personagem ficava
trancado era assim. Esse detalhe foi o suficiente para a censura entrar em ação.
Tânia
Toledo – Dez anos atrás você estava com “Lá”. Os tempos eram outros.
Hoje é diferente? Zé
Maria - Essa é uma história longa e meio triste. Durante os vinte e um anos de
regime militar foi um sufoco terrível fazer qualquer tipo de arte no Brasil. O
pessoal de teatro sempre procurou driblar a censura de uma maneira ou de outra,
uma vez que esse pessoal não tem uma inteligência muito grande só o fato de
serem funcionários públicos pra nós de teatro, é uma sorte. Podem ser até
competentes mas são muito bitolados no geral. Mas uma vez com “Lá”
aconteceu uma coisa incrível fiquei três meses com a peça em cartaz aqui, nas
barbas da censura, no Teatro da Classe, e quando fui pra Ponta Grossa depois
da estréia, numa quarta-feira, no dia seguinte, a censura interditou o espetáculo
- isso que a peça já estava sendo interpretada há dez anos no Brasil
inteiro. E isso acontece até hoje no Brasil. A censura é uma coisa estéril não
adianta você ter um certificado liberado com Brasília porque o resquício da
ditadura está nas pessoas. O conservadorismo e autoritarismo ainda é
arraigado. Em qualquer organização sempre tem um “ditadorzinho”. Por isso,
fazer arte/política no Brasil, até hoje, é uma coisa terrível. O risco ainda
continua o mesmo, taIvez em menores proporções, de uma pessoa assistir o espetáculo,
sentir-se afrontado e chamar a censura às falas... Por isso tem que se tomar
cuidado, porque ela ainda existe, a lei ainda é a mesma, a Constituição de 67
- e seus mecanismos - estão por aí. Tânia
– E a situação do artista paranaense. Você não tem pinta de galã, fala
enrolado e fica num palco uma hora e meia pra o que der e vier. Gosta do monólogo? Zé
Maria – Eu gosto muito. Fiz uma brincadeira uma vez – que os colegas de
teatro não entenderam muito (azar deles) – sobre o monólogo onde dizia que
preferia estar só do que mal acompanhado. Ser profissional no Brasil, de
especializar-se em alguma coisa, além de roubar, e passar os outros pra trás,
é difícil, mas basta encarar com seriedade para dar certo. Eu, por exemplo
gosto muito
do que faço, tenho trinta anos de teatro e procuro estar bem comigo. Isso foi
uma coisa que aprendi num depoimento que o Henfil deu para a imprensa em que
dizia: “Se a gente não está bem com a gente como estará bem com as
outros” – com as pessoas e o
trabalho. Por isso procuro estar bem comigo – o que é difícil. E outra coisa
importante, acredito no que faço e isso a gente passa para as pessoas. O ser humano precisa de algum
estímulo e eu talvez transmita, através do meu trabalho, essa energia, esse
amor. Tânia
– E o outro lado, o teatro dá grana, dá pra viver? Zé
Maria - Desde 69 eu optei pela carreira profissional de ator ou então
desistiria do teatro. De lá pra cá eu vivi, não sobrevivi. Isso também acho
que tem que ser excluído porque esse cacoete de que o artista vive mal, numa
merda, precisando da coisa é elementar. É claro que precisa. Dentro da sua
realidade. Só não pode querer ter um nível de vida da Suíça. Tem que ter
consciência do seu País. Tânia
– Isso você explora no seu trabalho. No teatro é um bom tema? Zé
Maria - Olha, eu faço só humor em cima dessas coisas. Eu sou professor de
teatro há quase quinze anos. Qualquer tema é bom – qualquer produção
decente, bem feita não dentro dos padrões televisivos atrai o público. E
isso de dizer que o que realmente dá público em teatro é comédia, não
passa de um engano. Eu, por exemplo, estou pensando em montar a peça
“Esperando Godot“ que nunca fez sucesso em lugar nenhum. Estou estudando,
já decorei alguns trechos e olha é bem capaz de fazer muito sucesso. Mas aí
pode ser que os medíocres, os preguiçosos – que nem jornal lêem – a
maioria do pessoal de teatro é inculta, nem sabe discutir a sua profissão –
argumentam que o sucesso aconteceu porque estou fazendo à la Zé Maria – a
minha maneira... Tânia
– Isso o enraivece? Zé
Maria – Não, porque só os grandes gênios do teatro têm estilo próprio. E
eles nem perceberem – ao invés de me pichar acabam me elogiando, afinal,
estilo não é qualquer pessoa que tem. No Brasil, por exemplo, três ou quatro
artistas comediantes ou dramáticos têm estilo. O resto é padrão. Eu me sinto
até raivoso do rótulo de estilo Zé Maria. Eu fui o primeiro a montar o monólogo,
no Paraná. Depois do sucesso, veio uma enxurrada do gênero e o teatro
paranaense virou um monólogo só. Também fui o pioneiro na montagem de show e,
atrás do sucesso deste meu primeiro, vieram muitos outros. Era “Nem Gay nem
Bicha” em 1982 – escrito por Groff, em cima do fato político do PMDB que
assumia o poder na época. Foi muito engraçado e fez um sucesso incrível. Tânia
– Você curte mais o lado da comédia ou do drama. Ou acha que os dois gêneros
andam juntos? Zé
Maria – Andam juntos. E eu senti necessidade do lado dramático. No momento,
estou fazendo com o grupo do Cefet, um papel desse quilate na peça “Eles não
usam Black-Tie” de Guarnieri. Tânia
– Tem público para teatro em Curitiba? Zé
Maria – Lógico, tanto é verdade que fiquei três meses no Guairinha – de
janeiro a 7 de abril do ano passado – época em que dizem não tem ninguém na
cidade. Essa é uma grande falha, o teatro é fechado, e isso é um mal terrível.
Um turista, por exemplo, pode achar que é uma cidade fantasma. Tânia
– E a popularização do teatro é válida? Zé
Maria – Isso é uma mentira muito grande e os órgãos públicos têm a
necessidade de manter essa fachada porque senão acabam perdendo o seu poder de
existência. O pessoal daqui não gosta muito do que eu falo porque são coisas
verdadeiras. Há muita demagogia no ar. Veja, por exemplo, o secretário da
Cultura, Renê Dotti, a Lúcia Camargo no teatro Guaíra – pessoa que eu gosto
– mas que não posso calar diante de um espetáculo que fizeram lá em Foz do
Iguaçu – isso não posso aplaudir. Se isso é popularização, não dá... Tânia
– Você é marginalizado por suas posições críticas? Zé
Maria – Claro, o normal é ser puxa-saco, concordar com tudo e, de repente, eu
fujo dessa regra. Outra coisa que me criticam é a afirmação de que o pessoal
de teatro é desinformado. Isso é verdade e eu não consigo conversar com esse
tipo de pessoa. Mas ainda fico com um péssimo artista do que com um político
mais brilhante. Tânia
– E esse retorno com José Maria Santos procura Sarney pra se coçar? Zé
Maria – Esse trabalho eu adoro, apesar do desgaste, uma vez que sou muito
perfeccionista. E não é pra menos, com essa temporada no Guairinha completo
duzentos e oitenta e uma apresentações. E você pode não acreditar mas estou
nervoso. Tenho ensaiado todas as manhãs. O abrir das cortinas é que me mantém
vivo. Outra coisa que gosto muito é do dinamismo da peça. Para esse retorno,
muita coisa nova no texto do Aldo Schmitiz que está morando em Santa Catarina.
A Polaca de Contenda, um dos personagens, por exemplo, que era candidata à
Constituinte e perdeu, agora é candidata à Presidência da República. Só que
o detalhe é que nenhum partido quis a sua filiação, então ela fez um convênio
com o Marronzinho, o marginal – que é o vice da chapa. Claro, num país que
até o Sílvio Santos quer ser presidente do Brasil, o que você quer que eu
ponha no palco? E, para finalizar: cada país tem o presidente que merece. Como
diz o título da peça – o povo brasileiro procura sarna pra se coçar. A história
verdadeira do Sarney é a seguinte, há cinqüenta anos atrás nasceu no
Nordeste um guri sem cabeça, daí a mãe pegou um coco, pintou um bigode e
apareceu essa praga que está aí. Por isso uma pergunta fica no ar – sai
Sarney quem entra no lugar?... |
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