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A
peça de Myrian San Juan possui um texto construído
de um modo simples e objetivo, dentro de uma problemática inteligentemente
escolhido pela autora paulista. Os jovens teatrólogos brasileiros
da atualidade, baseiam-se quase que exclusivamente nos assuntos da
burguesia, nas críticas à sociedade de consumo, porém Myrian resolveu
confrontar uma maneira de viver de uma parte da população brasileira (a do
interior do Amazonas) quando em contato, mesmo indireto, com as maravilhas
tecnológicas da sociedade de consumo, já implantada nos principais centros
urbanos do Brasil, e na qual vive a burguesia, iludida, em busca da futilidade
e do consumo animalesco, achando tudo isso uma maravilha de vida.A
família de Zeca vive uma vida primitiva, trabalha em um sítio, dia e noite,
diverte-se vendo o Rio Amazonas, seus valores morais, seus costumes,
preconceitos, seu misticismo exagerado, que pelo menos são puros, não tem a mínima
influência da vida moderna, eles estão devassados socialmente do resto do
Brasil, formando uma realidade social à parte, enfim eles ainda não foram
massificados pela propaganda , pela comunicação de massas, pelas notícias dos
rádios e jornais (coisas raras por lá). Quando Eloi (o vendedor) aparece
naquele recanto primitivista e, de sua mala, com suas conversas, tenta mostrar
algo diferente daquilo tudo que está ali, coloca em pânico os pobres animais
indefesos, que assumem um comportamento de expectativa e de desconfiança total. “Eloi
– Isto aqui é um relógio, serve para ver as horas“. “Zeca
– Ver as horas para quê? Ele pode não ter nenhuma serventia, mas é bem bonito“. O vendedor fala das coisas da grande cidade, dos carros, das diversões, dos vícios,
das paradas militares, dos circos, das máquinas, das ruas cheias de gente, das
melhores possibilidades e oportunidades financeiras para todos. Diante dessas
coisas maravilhosas ( para o vendedor e muitos outros ) aquela gente simples SE
ASSUSTA, os mais velhos consideram-no
como um louco, um feiticeiro – sem dúvida uma posição conformista
– os mais moços chegam a
entusiasmar-se com as novidades, mas estão por demais presos a uma autoridade
paternal de uma família patriarcal, para conseguirem dar aquele passo a frente,
no sentido de deixar toda aquela porcaria de vida. “Rozendo
– (o filho) – O vendedor disse que tem gente, na cidade, que só trabalha de
tarde e que ganha muito mais do que
nós “. “Raimunda – (a mãe) – Quem nasce pobre, morre pobre. Você está cansado de saber. O vendedor é mentiroso e louco“. No
momento em que Zeca confirma as suspeitas de sua velha mãe, que afirmava ter
visto o vendedor com um “pauzinho azul“, na beira do rio, fazendo sair
espuma da boca, ele concorda que o “homem é um louco mesmo“, sociedade,
pois o tal “pauzinho azul“ nada mais era do que a escova de dentes, tão
desconhecida daqueles caboclos, como pode confirmar qualquer elemento que já
tomou parte do PROJETO RONDON, que por muitas vezes devem viver situações
semelhantes a da peça, pelo menos na tentativa de comunicar algo novo a toda
humilde gente. Acho que, o primitivismo de Zeca e sua família salvou-se desse
progresso louco, consumidor das pessoas, atendendo minorias, iludindo maiorias,
que nos esmaga a todos numa massificação comercial, dolorosa, enervante e
violentamente cruel. Pergunto, como Sílvio Back o faz
no programa da peça: DE QUE LADO FICAMOS? Não
fosse o romantismo infantil do circo, valorizado sem lógica, pois até ele está afastado do panorama brasileiro,
hoje a infância se diverte com a TELEVISÃO – essa sim uma máquina
importante, diríamos que o texto de “ A Ameaça...’’ seria um dos
melhores dos últimos tempos, mas o texto em si é uma abertura importante, sem
dúvida, o melhor da última safra, pena não atingir Rio e São Paulo. *
* * * O
Grupo do Teatro Guaíra conseguiu “limpar a barra” do teatro paranaense,
nesta Capital, tão prejudicada por outros grupos de má lembrança, pelo ridículo
do trabalho apresentado. A montagem criada e escrita por José Maria Santos é
simplista, coerente e adequada às necessidades de quem pretende excursionar por
várias cidades do interior paranaense e catarinense, claro que não fica a
altura do excelente texto, mas não prejudica a boa compreensão da mensagem de
denúncia e de interrogação da autora. Os cenários construídos em dois
planos permitem o bom andamento e desenvolvimento de uma estória, com 7 (sete)
personagens, sem um excesso de movimentação no palco, faltando apenas uma
ilustração com painéis, fotos ou slides sobre os tipos humanos da região
amazônica dariam a platéia uma visualização precisa sobre a problemática
daquelas pessoas. O espetáculo se apóia e muito bem, no contraste do vendedor
e da família cabocla, transmitido pelas músicas de MARINHO, cantadas pelo
mesmo, que pela sua condição de compositor moderno (da linha CAETANO – GIL)
oferece precisamente uma ligação da cidade, contrastando com o deserto de
alegrias de um interior subdesenvolvido. A
cena em que MARINHO canta algo sobre a cidade grande, enquanto o vendedor
explica por gestos à ZULMIRA, detalhes da vida agitada das metrópoles, é de
grande expressão cênica e de poderoso teor comunicativo. Discordamos
apenas da concepção do diretor José Maria, no quadro final, pois o romantismo
circence, como ausência de algo para as crianças daquele local, prejudicam o
impacto causado pela morte do
vendedor, ocasião em que o final obteria um resultado mais positivo,
principalmente, se reforçado com estímulos áudio-visuais sobre os contrastes
de toda aquela trama, praticamente uma luta de um
estágio de uma economia primitiva contra o estágio de uma economia em
vias de desenvolvimento. O
desempenho de todo o grupo é bastante equilibrado, permanecendo sempre em cena
a idéia de uma família da região. Particularizando, podemos dizer que
ESMERALDA SILVEIRA (ZULMIRA) cria um tipo perfeito, da ingenuidade à inibição
de uma cabocla, ela extrai uma interpretação sincera, pura e naturalista, que
atinge em certos momentos a um lirismo despreocupado e inesperado. ROBERTO
MURTINHO (ELOI) traz a inocência e a descontração de um vendedor, que não
percebe o estado de aflição em que coloca a família, seu entusiasmo correto e
contido, sua expressão dramática simples evita os exageros que o tipo poderia,
erradamente, dar a entender, PAULO SÁ (ZECA) ainda poderá extrair algo mais de
seu personagem, mas está excelente na última cena, seu ar de estupidez
sincera, ao completar o crime, é impressionante. LUCIO WEBER (ROZENDO) bastante
contido e adequado ao tipo, enquanto IONE PRADO (RAIMUNDA) e DORALICE
BITTENCOURT (JUCA) exteriorizam por demais seus papéis, caricaturando –os
mais para o lado caipira convencional do
que aos seus tipos humanos. O vestuário é bastante adequado e colabora para a
maior identificação e compreensão das realidades, sociais de todos. Espetáculo de excelente texto, (boa montagem cujo final deve
ser revisto) e com um grupo entusiasta de atores, que lutam com muito idealismo
para que o teatro não morra, continue respirando sempre, em benefício da alta
cultura, que enquanto existir evitará a total mediocridade humana que a cultura
de massas tanto objetiva. Por fim, salve as letras inteligentes de MARINHO, que
tanto valoriza a encenação como a que se segue “ Aves e Céus “. “Ora tem aves e céus nos verdes amarelos azuis e brancos tropicais em
não totais percepções Na
cidade o automóvel O
banquete o dentifrício Cinema
e televisão Na
capital a encantada capital O
analfabeto psico feitiço Na
inocência de lonjuras Prometi
- esquecidas Devora
inocentes corpos Humanos
– Animalus – Humanos”. |
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