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JOSÉ MARIA SANTOS

IMPRENSA
O Estado, Florianópolis, 18 mar. 1978.
A ameaça veio com a chuva
Mário Alves Neto

A peça de Myrian San Juan possui um texto construído de um modo simples e objetivo, dentro de uma problemática inteligentemente escolhido pela autora paulista. Os jovens teatrólogos brasileiros da atualidade, baseiam-se quase que exclusivamente nos assuntos da burguesia, nas críticas à sociedade de consumo, porém Myrian resolveu confrontar uma maneira de viver de uma parte da população brasileira (a do interior do Amazonas) quando em contato, mesmo indireto, com as maravilhas tecnológicas da sociedade de consumo, já implantada nos principais centros urbanos do Brasil, e na qual vive a burguesia, iludida, em busca da futilidade e do consumo animalesco, achando tudo isso uma maravilha de vida.A família de Zeca vive uma vida primitiva, trabalha em um sítio, dia e noite, diverte-se vendo o Rio Amazonas, seus valores morais, seus costumes, preconceitos, seu misticismo exagerado, que pelo menos são puros, não tem a mínima influência da vida moderna, eles estão devassados socialmente do resto do Brasil, formando uma realidade social à parte, enfim eles ainda não foram massificados pela propaganda , pela comunicação de massas, pelas notícias dos rádios e jornais (coisas raras por lá). Quando Eloi (o vendedor) aparece naquele recanto primitivista e, de sua mala, com suas conversas, tenta mostrar algo diferente daquilo tudo que está ali, coloca em pânico os pobres animais indefesos, que assumem um comportamento de expectativa e de desconfiança total.

“Eloi – Isto aqui é um relógio, serve para ver as horas“.

“Zeca – Ver as horas para quê?

Ele pode não ter nenhuma serventia, mas é bem bonito“.

O vendedor fala das coisas da grande cidade, dos carros, das diversões, dos vícios, das paradas militares, dos circos, das máquinas, das ruas cheias de gente, das melhores possibilidades e oportunidades financeiras para todos. Diante dessas coisas maravilhosas ( para o vendedor e muitos outros ) aquela gente simples SE ASSUSTA, os mais velhos  consideram-no  como um louco, um feiticeiro – sem dúvida uma posição conformista – os mais  moços chegam a entusiasmar-se com as novidades, mas estão por demais presos a uma autoridade paternal de uma família patriarcal, para conseguirem dar aquele passo a frente, no sentido de deixar toda aquela porcaria de vida.

“Rozendo – (o filho) – O vendedor disse que tem gente, na cidade, que só trabalha de tarde e que ganha  muito mais do que nós “.

“Raimunda – (a mãe) – Quem nasce pobre, morre pobre. Você está cansado de saber. O vendedor é mentiroso e louco“.

No momento em que Zeca confirma as suspeitas de sua velha mãe, que afirmava ter visto o vendedor com um “pauzinho azul“, na beira do rio, fazendo sair espuma da boca, ele concorda que o “homem é um louco mesmo“, sociedade, pois o tal “pauzinho azul“ nada mais era do que a escova de dentes, tão desconhecida daqueles caboclos, como pode confirmar qualquer elemento que já tomou parte do PROJETO RONDON, que por muitas vezes devem viver situações semelhantes a da peça, pelo menos na tentativa de comunicar algo novo a toda humilde gente. Acho que, o primitivismo de Zeca e sua família salvou-se desse progresso louco, consumidor das pessoas, atendendo minorias, iludindo maiorias, que nos esmaga a todos numa massificação comercial, dolorosa, enervante e violentamente cruel. Pergunto, como Sílvio Back o faz  no programa da peça: DE QUE LADO FICAMOS?

Não fosse o romantismo infantil do circo, valorizado sem  lógica, pois até ele está afastado do panorama brasileiro, hoje a infância se diverte com a TELEVISÃO – essa sim uma máquina importante, diríamos que o texto de “ A Ameaça...’’ seria um dos melhores dos últimos tempos, mas o texto em si é uma abertura importante, sem dúvida, o melhor da última safra, pena não atingir Rio e São Paulo.

* * * *

 O Grupo do Teatro Guaíra conseguiu “limpar a barra” do teatro paranaense, nesta Capital, tão prejudicada por outros grupos de má lembrança, pelo ridículo do trabalho apresentado. A montagem criada e escrita por José Maria Santos é simplista, coerente e adequada às necessidades de quem pretende excursionar por várias cidades do interior paranaense e catarinense, claro que não fica a altura do excelente texto, mas não prejudica a boa compreensão da mensagem de denúncia e de interrogação da autora. Os cenários construídos em dois planos permitem o bom andamento e desenvolvimento de uma estória, com 7 (sete) personagens, sem um excesso de movimentação no palco, faltando apenas uma ilustração com painéis, fotos ou slides sobre os tipos humanos da região amazônica dariam a platéia uma visualização precisa sobre a problemática daquelas pessoas. O espetáculo se apóia e muito bem, no contraste do vendedor e da família cabocla, transmitido pelas músicas de MARINHO, cantadas pelo mesmo, que pela sua condição de compositor moderno (da linha CAETANO – GIL) oferece precisamente uma ligação da cidade, contrastando com o deserto de alegrias de um interior subdesenvolvido.

A cena em que MARINHO canta algo sobre a cidade grande, enquanto o vendedor explica por gestos à ZULMIRA, detalhes da vida agitada das metrópoles, é de grande expressão cênica e de poderoso teor comunicativo.

Discordamos apenas da concepção do diretor José Maria, no quadro final, pois o romantismo circence, como ausência de algo para as crianças daquele local, prejudicam o impacto causado  pela morte do vendedor, ocasião em que o final obteria um resultado mais positivo, principalmente, se reforçado com estímulos áudio-visuais sobre os contrastes de toda aquela trama, praticamente uma luta de um  estágio de uma economia primitiva contra o estágio de uma economia em vias de desenvolvimento.

O desempenho de todo o grupo é bastante equilibrado, permanecendo sempre em cena a idéia de uma família da região. Particularizando, podemos dizer que ESMERALDA SILVEIRA (ZULMIRA) cria um tipo perfeito, da ingenuidade à inibição de uma cabocla, ela extrai uma interpretação sincera, pura e naturalista, que atinge em certos momentos a um lirismo despreocupado e inesperado. ROBERTO MURTINHO (ELOI) traz a inocência e a descontração de um vendedor, que não percebe o estado de aflição em que coloca a família, seu entusiasmo correto e contido, sua expressão dramática simples evita os exageros que o tipo poderia, erradamente, dar a entender, PAULO SÁ (ZECA) ainda poderá extrair algo mais de seu personagem, mas está excelente na última cena, seu ar de estupidez sincera, ao completar o crime, é impressionante. LUCIO WEBER (ROZENDO) bastante contido e adequado ao tipo, enquanto IONE PRADO (RAIMUNDA) e DORALICE BITTENCOURT (JUCA) exteriorizam por demais seus papéis, caricaturando –os mais para o lado caipira convencional  do que aos seus tipos humanos. O vestuário é bastante adequado e colabora para a maior identificação e compreensão das realidades, sociais de todos.

 Espetáculo de excelente texto, (boa montagem cujo final deve ser revisto) e com um grupo entusiasta de atores, que lutam com muito idealismo para que o teatro não morra, continue respirando sempre, em benefício da alta cultura, que enquanto existir evitará a total mediocridade humana que a cultura de massas tanto objetiva. Por fim, salve as letras inteligentes de MARINHO, que tanto valoriza a encenação como a que se segue “ Aves e Céus “.

 “Ora tem aves e céus

nos verdes amarelos

azuis e brancos tropicais

em não totais percepções

Na cidade o automóvel

O banquete o dentifrício

Cinema e televisão

Na capital a encantada capital

O analfabeto psico feitiço

Na inocência de lonjuras

Prometi - esquecidas

Devora inocentes corpos

Humanos – Animalus – Humanos”.

 
 
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