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“De repente, Raul Mello, um advogado, se vê trancado no banheiro de
seu escritório, numa tarde de Sábado em que todos os que trabalham com ele já
foram para casa, sem a mínima possibilidade de sair”. Trata-se da peça “Lá”
escrita em 1969, por Sérgio Jockyman, e que entra em cartaz dia 4, no auditório
Salvador de Ferrante do Teatro Guaíra, apresentado-se às 21 horas. “Lá”
é o primeiro monólogo cômico da dramaturgia brasileira, sendo que quem vive o
único personagem é o ator José Maria Santos. “Esta peça comemora a milésima
apresentação, sendo o maior recorde de permanência do teatro paranaense”,
explica José Maria, “o personagem faz análises pessoais do mundo em que vive
e chega a uma conclusão: descobre que ele é um dos grandes mau-caráteres da
história. Tudo isto numa salada de humor que não dá ao expectador um minuto
sequer de descanso”. Na primeira montagem da peça, quatorze cenas foram
cortadas, mas agora, a segunda apresentação em Curitiba, o texto foi liberado
sem cortes. José
Maria dos Santos não encara este fato como conseqüência da abertura, pois
“nunca deveria ter havido fechadura. Abomino todo e qualquer esquema de
censura. A liberdade não pode ser limitada”. O
espetáculo é feito na linha crítica de interpretação. Não pretende impor
ao expectador a opinião do autor e sim criar consciência crítica. Há também
a difícil técnica de colocar a platéia como cúmplice da situação do palco.
José Maria é contra a mensagem imposta a qualquer pessoa: “Em nossa peça,
é usado o método Brechtiano, ou seja, colocar o expectador como juiz da questão”. Sobre
a crise na arte e o fato dela ser inacessível ao povo, ele lembra que “não
se pode falar em crise na arte sem fazer um retrospecto da situação política,
social e econômica do país. Porque se um país está à beira da falência, é
natural que o teatro – como arte – sofra esta conseqüência. A falta de
apoio que o governo dá à arte é questão de pensar que o teatro, por exemplo,
é menos importante que a tecnologia ou que os negócios. A cultura passa a ter
segunda necessidade, na opinião deles. Só que esquecem que um povo sem cultura
e sem educação é um povo que sofre de uma miséria tão igual à fome. Um
povo que tivesse cultura e educação criaria consciência para muitas coisas
que, atualmente, ele não percebe. Inclusive veria a força que tem para
modificar-se interior e socialmente”. Zé Maria acha também que, como
infelizmente vivemos num país subdesenvolvido e terrivelmente colonizado – até
mesmo culturalmente – onde órgãos estaduais não dão a mínima importância
à cultura, o teatro como arte só pode continuar sendo privilégio de uma
minoria com poder aquisitivo mais elevado. Ele continua sua análise da peça
dizendo: “Ninguém está dizendo que a fome, o problema habitacional, a
marginalidade infantil e a inflação são situações fáceis de resolver. Mas
também não é impossível! Uma das coisas que mais me causa irritação é o
fato de que um governo tão autoritário, repressor, que tem todas as forças e
os instrumentos para torturar, matar, banir do país tenha se tornado
completamente impotente para resolver a corrupção e a inflação. Minorias que
negocitam com a Vale do Rio Doce: grupos que estão com capital depositado em
bancos suíços. Por que este governo que tanto oprime não tem forças para
eliminar a situação de miséria do Brasil?” O
autor da peça Sérgio
Jockyman é gaúcho. Sua primeira peça encenada em São Paulo foi “Saravá”,
no Teatro Brasileiro de Comédia, sob a direção de Antônio Abujamra. Seu
humor é satírico e irresistível. Isto ficou provado no seu primeiro grande
sucesso em São Paulo: “Boa tarde, Excelência”, uma visão bem humorada e
uma crítica aguda à vida política do Brasil, com momentos de hilariante
comicidade. “Boa tarde, Excelência” constitui-se de um enorme sucesso e
permaneceu em cartaz em São Paulo e obteve sucesso idêntico no Rio de Janeiro
e em todas as capitais do Brasil por onde excursionou. Preço
acessível
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