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JOSÉ MARIA SANTOS

IMPRENSA
Caderno Viver. Curitiba, domingo, 25 de maio de 1980.
José Maria Santos e a peça “Lá”
Análise do bom burguês num país terrivelmente subdesenvolvido

  “De repente, Raul Mello, um advogado, se vê trancado no banheiro de seu escritório, numa tarde de Sábado em que todos os que trabalham com ele já foram para casa, sem a mínima possibilidade de sair”. Trata-se da peça “Lá” escrita em 1969, por Sérgio Jockyman, e que entra em cartaz dia 4, no auditório Salvador de Ferrante do Teatro Guaíra, apresentado-se às 21 horas.

 “Lá” é o primeiro monólogo cômico da dramaturgia brasileira, sendo que quem vive o único personagem é o ator José Maria Santos. “Esta peça comemora a milésima apresentação, sendo o maior recorde de permanência do teatro paranaense”, explica José Maria, “o personagem faz análises pessoais do mundo em que vive e chega a uma conclusão: descobre que ele é um dos grandes mau-caráteres da história. Tudo isto numa salada de humor que não dá ao expectador um minuto sequer de descanso”. Na primeira montagem da peça, quatorze cenas foram cortadas, mas agora, a segunda apresentação em Curitiba, o texto foi liberado sem cortes.

 José Maria dos Santos não encara este fato como conseqüência da abertura, pois “nunca deveria ter havido fechadura. Abomino todo e qualquer esquema de censura. A liberdade não pode ser limitada”.

 O espetáculo é feito na linha crítica de interpretação. Não pretende impor ao expectador a opinião do autor e sim criar consciência crítica. Há também a difícil técnica de colocar a platéia como cúmplice da situação do palco. José Maria é contra a mensagem imposta a qualquer pessoa: “Em nossa peça, é usado o método Brechtiano, ou seja, colocar o expectador como juiz da questão”.

Sobre a crise na arte e o fato dela ser inacessível ao povo, ele lembra que “não se pode falar em crise na arte sem fazer um retrospecto da situação política, social e econômica do país. Porque se um país está à beira da falência, é natural que o teatro – como arte – sofra esta conseqüência. A falta de apoio que o governo dá à arte é questão de pensar que o teatro, por exemplo, é menos importante que a tecnologia ou que os negócios. A cultura passa a ter segunda necessidade, na opinião deles. Só que esquecem que um povo sem cultura e sem educação é um povo que sofre de uma miséria tão igual à fome. Um povo que tivesse cultura e educação criaria consciência para muitas coisas que, atualmente, ele não percebe. Inclusive veria a força que tem para modificar-se interior e socialmente”. Zé Maria acha também que, como infelizmente vivemos num país subdesenvolvido e terrivelmente colonizado – até mesmo culturalmente – onde órgãos estaduais não dão a mínima importância à cultura, o teatro como arte só pode continuar sendo privilégio de uma minoria com poder aquisitivo mais elevado. Ele continua sua análise da peça dizendo: “Ninguém está dizendo que a fome, o problema habitacional, a marginalidade infantil e a inflação são situações fáceis de resolver. Mas também não é impossível! Uma das coisas que mais me causa irritação é o fato de que um governo tão autoritário, repressor, que tem todas as forças e os instrumentos para torturar, matar, banir do país tenha se tornado completamente impotente para resolver a corrupção e a inflação. Minorias que negocitam com a Vale do Rio Doce: grupos que estão com capital depositado em bancos suíços. Por que este governo que tanto oprime não tem forças para eliminar a situação de miséria do Brasil?”

O autor da peça

 Sérgio Jockyman é gaúcho. Sua primeira peça encenada em São Paulo foi “Saravá”, no Teatro Brasileiro de Comédia, sob a direção de Antônio Abujamra. Seu humor é satírico e irresistível. Isto ficou provado no seu primeiro grande sucesso em São Paulo: “Boa tarde, Excelência”, uma visão bem humorada e uma crítica aguda à vida política do Brasil, com momentos de hilariante comicidade. “Boa tarde, Excelência” constitui-se de um enorme sucesso e permaneceu em cartaz em São Paulo e obteve sucesso idêntico no Rio de Janeiro e em todas as capitais do Brasil por onde excursionou.

Preço acessível

                A peça “Lá” entra em cartaz no próximo dia 4 de junho, permanecendo em curtíssima temporada, no Guairinha. Às 9 da noite. Os preços são acessíveis: Cr$ 200,00 e Cr$ 100,00 para estudantes. Só, por favor, para pagar preço de estudante, leve a carteirinha que comprove!

 

 
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