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Três
paixões para um homem só. Não é demais quando esse homem se chama José
Maria Santos. Amava igualmente o teatro, obras de arte, e ecologia. E sem dúvida
pelas mesmas razões. Transferência, criatividade, vida. O ciclo era imutável.
Ele passava da comédia para a tragédia. Não tanto para ser volúvel ou
inconstante, mas movido por um desejo desenfreado de ir ainda mais rápido,
ainda mais longe. Sua vida inteira foi pressionada pela urgência com a qual lhe
foi impossível negociar por medo de descobrir o rosto da sua solidão. José
Maria Santos foi artista de diversas maneiras. Não voltou nunca à etapa
anterior de sua evolução estética, mesmo e principalmente se esta pudesse
parecer fecunda em possibilidades de explorar. Ele tentou por outro lado
fornecer equivalente artístico para aqueles que foram seus alunos, como eu.
Entre
o professor de interpretação e seu aluno, não houve mal entendimento
estabelecido. Ambos experimentaram um enorme prazer em montar personagens, e
mantinham-se mutuamente em estima
vigiada. O
professor achava que o aluno pecava por falta de vivência e o aluno desconfiava
da profunda vivência do mestre. Maturidade que poderia deixar supor que uma crítica
favorável não seria desinteressada. A esse escrúpulo somou-se uma reticência
real quanto a uma arte que parecia, continuamente, escapar a todas as regras,
mesmo as de vanguarda. A
preocupação em não se deixar trancafiar num dogma foi constante no professor
José Maria Santos. Realista e improvisador, encontrou-se na posição
desconfortável, em perpétua contradição com seus discípulos. Prezava demais
sua singularidade e só ela lhe permitia precipitar-se onde não era esperado,
ainda que para isso tivesse que macaquear as contorções do mais gasto
academicismo. Suas referências aos antigos estatutos da arte e suas múltiplas
serventias, por exemplo, serviram antes de tudo para despistar aqueles que
desejavam usá-lo como bandeira. Na
verdade seu gosto por arte teatral com odor e sotaque paranaense levou-o ao coração
de um só górdio que se recusem a desmanchar. Era antes um homem de mudanças súbitas
do que de decisões. O período de montagens, no curso do Teatro Guaíra, da
Companhia Independente de Teatro ou na Escola Técnica, permaneceu como um dos
mais férteis, porque autorizou a coexistência de elementos a inconciliáveis
como busca e criação, símbolos e imaginário, gestos, voz e idéias, sem
esquecer, é claro, a relação de ilusão que a arte teatral gera. Era um
exemplo pertinente disso. No
entanto, a originalidade do professor José Maria Santos revelou-se mais
radical, quando sentiu a necessidade de lutar pelo lugar que a arte do Paraná
deveria ter no cenário nacional. Antes, ao sair da virtuose figurativa, no
momento em que efetuou, hesitante, sua primeira busca da abstração, começou a
construir a apoteose dessa busca. O prazer de ensinar atores e atrizes e a ilusão
do construtor de artistas encontraram-se no jogo brilhante das superposições
do qual nós que testemunhamos seus ensinamentos, ficamos com uma das mais
perturbadoras versões. Perturbadoras
Versões Perturbadoras
versões, escapam. Mas ao invés de efetuarmos uma seleção na produção do
professor José Maria Santos e estabelecermos uma distinção entre os pontos
culminantes e as fases depressivas, é melhor perguntar-se (sic)
em que o mestre pode ser interessante, hoje, após a sua morte. O principal mérito
da manifestação de José Maria Santos consiste, aliás, em mostrar a
atualidade de seus ensinamentos e não em render-lhe uma homenagem que cheire a
naftalina. O mestre
desencarnou e já começava a turvar as águas da arte contemporânea. Nisso
permanece fiel à imagem do que foi, um homem em sua própria busca em qualquer
época. Raramente algum personagem terá sido tão admirado por aqueles que
antes o reivindicaram, na busca do saber interpretativo. Como se José Maria
Santos só pudesse decepcionar com a falta que faz. Ao
mesmo tempo que fustigava a burrice e o tédio da burguesia, com peças com
fundo eminentemente político, produzia, para levar às pessoas humildes dos
bairros, peças de Natal, gratuitamente. E suas contradições e reviravoltas
apareceram com um refinamento da arte da provocação. Mas
José Maria Santos era menos um provocador do que um sedutor, isto é,
etimologicamente falando, alguém que conduz seus ensinamentos para fora dos
caminhos conhecidos.
A
crítica aos trabalhos desse professor inclassificável sempre oscilou entre a
miopia, e a hipermetropia. Nessa ótica, a leitura da retrospectiva de José
Maria Santos tenderia para o segundo defeito. A atitude do mestre é apresentada
às novas gerações como um exemplo a seguir. Quanto a obra, no cinema, no
teatro, escrevendo, dirigindo, produzindo, sua complexidade e heterogeneidade são
inutilmente acentuadas por um enfoque confuso. O professor José
Maria Santos, hoje como ontem, deixou uma aula para todos os seus alunos. Pois
ele sempre aceitou as lições da vida. Tudo isso não constituiu uma referência,
nem um “pattern”. Pois quando o olhar demora-se numa cena, qualquer que seja
a sua modalidade não pode deixar de ser perturbado por um efeito duplo. O
primeiro diz respeito a mais ordinária admiração, aquela engendrada pelo
espetáculo de um trabalho de êxito, cuja feitura é muitas vezes irrepreensível.
O segundo flerta com decepção provocada por uma estranha impressão de missão
inacabada. Uma promessa parece não ter sido mantida até o fim. A promessa de
resolver o problema do teatro paranaense, hoje, completamente órfão. Não se
trata de uma falta de acabamento técnico, mas de um desejo não satisfeito, o
desejo de acabar com a escolha de um melhor caminho para nossa arte, do
profissionalismo, da maturidade, da ausência de inveja, ou simplesmente a
representação. Os
ensinamentos do mestre José Maria Santos nunca foram de contemplação, mas da
pressa. Não da pressa de acabar, mas de deslocar-se para evitar, a qualquer
custo fixar-se na mediocridade, no imobilismo. O professor José Maria, talvez estivesse à frente de seu tempo
ou de seus contemporâneos, ou de seus alunos e, principalmente, à frente de si
mesmo. Após
36 anos de carreira artística, interpretando, dirigindo, produzindo e
ensinando, José Maria Santos deu o sinal de início do espetáculo, acentou
todos os spots, no centro do palco vazio. Gargalhou com todas as suas forças.
Caíram as luzes em resistência. Mas não fechou as cortinas. Esse espetáculo
enigma tem um título: “Primeiro procurem o artista dentro de vocês, meus
queridos discípulos”. |
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