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JOSÉ MARIA SANTOS

IMPRENSA
Jornal do Estado, Curitiba, 1º de  fevereiro de. 1990. Espaço Dois. 
Professor José Maria “O teatro é a minha vida”
Narciso Assumpção

Três paixões para um homem só. Não é demais quando esse homem se chama José Maria Santos. Amava igualmente o teatro, obras de arte, e ecologia. E sem dúvida pelas mesmas razões. Transferência, criatividade, vida. O ciclo era imutável. Ele passava da comédia para a tragédia. Não tanto para ser volúvel ou inconstante, mas movido por um desejo desenfreado de ir ainda mais rápido, ainda mais longe. Sua vida inteira foi pressionada pela urgência com a qual lhe foi impossível negociar por medo de descobrir o rosto da sua solidão.

José Maria Santos foi artista de diversas maneiras. Não voltou nunca à etapa anterior de sua evolução estética, mesmo e principalmente se esta pudesse parecer fecunda em possibilidades de explorar. Ele tentou por outro lado fornecer equivalente artístico para aqueles que foram seus alunos, como eu.          

Entre o professor de interpretação e seu aluno, não houve mal entendimento estabelecido. Ambos experimentaram um enorme prazer em montar personagens, e mantinham-se mutuamente  em estima vigiada.

O professor achava que o aluno pecava por falta de vivência e o aluno desconfiava da profunda vivência do mestre. Maturidade que poderia deixar supor que uma crítica favorável não seria desinteressada. A esse escrúpulo somou-se uma reticência real quanto a uma arte que parecia, continuamente, escapar a todas as regras, mesmo as de vanguarda.

A preocupação em não se deixar trancafiar num dogma foi constante no professor José Maria Santos. Realista e improvisador, encontrou-se na posição desconfortável, em perpétua contradição com seus discípulos. Prezava demais sua singularidade e só ela lhe permitia precipitar-se onde não era esperado, ainda que para isso tivesse que macaquear as contorções do mais gasto academicismo. Suas referências aos antigos estatutos da arte e suas múltiplas serventias, por exemplo, serviram antes de tudo para despistar aqueles que desejavam usá-lo como bandeira.

Na verdade seu gosto por arte teatral com odor e sotaque paranaense levou-o ao coração de um só górdio que se recusem a desmanchar. Era antes um homem de mudanças súbitas do que de decisões. O período de montagens, no curso do Teatro Guaíra, da Companhia Independente de Teatro ou na Escola Técnica, permaneceu como um dos mais férteis, porque autorizou a coexistência de elementos a inconciliáveis como busca e criação, símbolos e imaginário, gestos, voz e idéias, sem esquecer, é claro, a relação de ilusão que a arte teatral gera. Era um exemplo pertinente disso.

No entanto, a originalidade do professor José Maria Santos revelou-se mais radical, quando sentiu a necessidade de lutar pelo lugar que a arte do Paraná deveria ter no cenário nacional. Antes, ao sair da virtuose figurativa, no momento em que efetuou, hesitante, sua primeira busca da abstração, começou a construir a apoteose dessa busca. O prazer de ensinar atores e atrizes e a ilusão do construtor de artistas encontraram-se no jogo brilhante das superposições do qual nós que testemunhamos seus ensinamentos, ficamos com uma das mais perturbadoras versões.

Perturbadoras Versões

Perturbadoras versões, escapam. Mas ao invés de efetuarmos uma seleção na produção do professor José Maria Santos e estabelecermos uma distinção entre os pontos culminantes e as fases depressivas, é melhor perguntar-se (sic) em que o mestre pode ser interessante, hoje, após a sua morte.

 O principal mérito da manifestação de José Maria Santos consiste, aliás, em mostrar a atualidade de seus ensinamentos e não em render-lhe uma homenagem que cheire a naftalina.

 O mestre desencarnou e já começava a turvar as águas da arte contemporânea. Nisso permanece fiel à imagem do que foi, um homem em sua própria busca em qualquer época. Raramente algum personagem terá sido tão admirado por aqueles que antes o reivindicaram, na busca do saber interpretativo. Como se José Maria Santos só pudesse decepcionar com a falta que faz.

Ao mesmo tempo que fustigava a burrice e o tédio da burguesia, com peças com fundo eminentemente político, produzia, para levar às pessoas humildes dos bairros, peças de Natal, gratuitamente. E suas contradições e reviravoltas apareceram com um refinamento da arte da provocação.

Mas  José Maria Santos era menos um provocador do que um sedutor, isto é, etimologicamente falando, alguém que conduz seus ensinamentos para fora dos caminhos conhecidos.            

A crítica aos trabalhos desse professor inclassificável sempre oscilou entre a miopia, e a hipermetropia. Nessa ótica, a leitura da retrospectiva de José Maria Santos tenderia para o segundo defeito. A atitude do mestre é apresentada às novas gerações como um exemplo a seguir. Quanto a obra, no cinema, no teatro, escrevendo, dirigindo, produzindo, sua complexidade e heterogeneidade são inutilmente acentuadas por um enfoque confuso.

 O professor José Maria Santos, hoje como ontem, deixou uma aula para todos os seus alunos. Pois ele sempre aceitou as lições da vida. Tudo isso não constituiu uma referência, nem um “pattern”. Pois quando o olhar demora-se numa cena, qualquer que seja a sua modalidade não pode deixar de ser perturbado por um efeito duplo.

O primeiro diz respeito a mais ordinária admiração, aquela engendrada pelo espetáculo de um trabalho de êxito, cuja feitura é muitas vezes irrepreensível. O segundo flerta com decepção provocada por uma estranha impressão de missão inacabada. Uma promessa parece não ter sido mantida até o fim. A promessa de resolver o problema do teatro paranaense, hoje, completamente órfão. Não se trata de uma falta de acabamento técnico, mas de um desejo não satisfeito, o desejo de acabar com a escolha de um melhor caminho para nossa arte, do profissionalismo, da maturidade, da ausência de inveja, ou simplesmente a representação.

Os ensinamentos do mestre José Maria Santos nunca foram de contemplação, mas da pressa. Não da pressa de acabar, mas de deslocar-se para evitar, a qualquer custo fixar-se na mediocridade, no imobilismo.

 O professor José Maria, talvez estivesse à frente de seu tempo ou de seus contemporâneos, ou de seus alunos e, principalmente, à frente de si mesmo.

Após 36 anos de carreira artística, interpretando, dirigindo, produzindo e ensinando, José Maria Santos deu o sinal de início do espetáculo, acentou todos os spots, no centro do palco vazio. Gargalhou com todas as suas forças. Caíram as luzes em resistência. Mas não fechou as cortinas. Esse espetáculo enigma tem um título: “Primeiro procurem o artista dentro de vocês, meus queridos discípulos”.

 
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